A PF (Polícia Federal) indicou que houve indícios de manipulação de documentos após a Operação WiFi Livre, da Polícia Civil do Estado de São Paulo, deflagrada em junho deste ano.

Na época, a investigação das autoridades mirou a relação entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB (Instituto Conhecer Brasil), de Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora Go Up, responsável pelo filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL).

A informação consta no despacho de Flávio Dino, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou a operação da PF realizada nesta quinta-feira (10). A decisão foi tomada após serem identificadas conexões entre o caso e investigações já em tramitação no STF sobre o suposto desvio de emendas parlamentares para a produção do filme.

“Os indícios de manipulação documental surgiram justamente após a deflagração da operação policial e durante o desenvolvimento das atividades de auditoria, revelando dinâmica investigativa em evolução e sugerindo a existência de comunicações, arquivos eletrônicos, versões de documentos, registros de edição e armazenamentos em nuvem produzidos posteriormente à primeira diligência”, diz trecho do despacho.

E completa: “Em outras palavras, parte relevante da prova procurada sequer existia ou não era conhecida quando da busca realizada em junho de 2026”.

Dino ainda escreve que a operação desta quinta-feira (10) — que foi autorizada antes do afastamento de Andrei Rodrigues, da PF — mira provas de fatos novos, já que há “fundado receio de que documentos digitais, mensagens, registros de edição, arquivos em nuvem e elementos contábeis relevantes possam ser ocultados, alterados ou destruídos caso a medida não seja prontamente executada”.

Um dos alvos foi o deputado federal Mario Frias (PL-SP), que tem foro por prerrogativa de função na Corte. Segundo a investigação, o parlamentar retardou a prestação de informações sobre emendas parlamentares suspeitas. 

Como havia suspeitas de fraude envolvendo o contrato do ICB, o ministro retirou a investigação da Polícia Civil de São Paulo e determinou a centralização da apuração na Polícia Federal, sob supervisão do Supremo.

A Prefeitura de São Paulo disse, em nota enviada à CNN Brasil, que “repudia qualquer tentativa de criar relações entre projetos e programas do Município e a produção cinematográfica do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.”

“A administração municipal reitera que a obra não recebeu recursos municipais. A assinatura e execução do termo de colaboração firmado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) não têm qualquer irregularidade identificada. O Programa Wifi Livre segue em pleno funcionamento na cidade com 3.200 pontos instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados”, afirma.

“Atualmente, o custo de manutenção de cada ponto de Wi-Fi é de R$ 1.280,80, valor menor do que os praticados na gestão Haddad, quando cada ponto chegou a custar R$ 8.899,13. Vale destacar que o Tribunal de Contas do Município (TCM-SP) julgou irregular a execução do contrato de 2014 por falhas de autenticação, monitoramento e qualidade do serviço. Em relação à parceria com o ICB, a Controladoria Geral do Município (CGM) acompanha as investigações desde as primeiras denúncias e instaurou procedimento em maio de 2026, que segue andamento”, conclui.

A CNN Brasil tentou contato com Mario Frias, a produtora Karina Gama e o PL para posicionamento do ex-presidente, mas ainda não teve retorno.

Entenda operação WiFi Livre

A Polícia Civil realizou, em junho, a Operação Wi-Fi Livre para investigar uma possível relação entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB.

A apuração verificava fraudes em licitação da prefeitura no valor de R$ 108 milhões. A Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social da Capital analisava eventuais irregularidades na implantação, operação e manutenção de 5.000 pontos de acesso à rede de wi-fi pública em comunidades do município, no contexto do programa WiFi Livre SP.

As investigações apontaram “possível cenário de grave comprometimento da lisura administrativa e financeira desde a origem da contratação da organização parceira”. Isso porque o cronograma original visava à entrega de 5.000 pontos de conectividade até junho de 2025, mas houve a instalação de apenas 3.200 pontos.

“Para ocultar a mora e legitimar o atraso reiterado, foram celebrados três termos aditivos em curtíssimos intervalos de dias. Paralelamente, constatou-se que a administração municipal realizou a antecipação de pagamentos na vultosa quantia de R$ 26.000.000,00 sem a devida contraprestação, incluindo repasses superiores a R$ 11.000.000,00 nos meses de julho e agosto de 2024 relativos a 3.200 pontos quando somente seis deles de fato funcionavam no período”, dizia trecho do comunicado ao qual a CNN Brasil teve acesso na época.

Ainda segundo a nota enviada à reportagem, as investigações mostram que o ICB não tem experiência ou histórico no setor de telecomunicações, “limitando seu histórico operacional a feiras de livros e eventos de natureza literária ou religiosa”.

À prefeitura disse à CNN Brasil, na época, que colabora com as investigações e que “segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações”. Em nota, a administração também afirmou que o material requisitado na ocasião já havia sido encaminhado às autoridades.