Perícia contratada pela Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, constatou que a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teve um gasto de R$ 75 milhões e não contou com dinheiro público para a sua realização.
No início deste mês, a empresa foi alvo de operação que investiga desvio de verba pública em São Paulo.
De acordo com o IPI (Instituto de Perícia Investigativa), serviço privado de perícia, os custos totais das operações referentes ao filme no Brasil e nos Estados Unidos alcançaram US$ 13 milhões, o que equivale a aproximadamente R$ 75 milhões.
O documento produzido pelo instituto e assinado pelo perito Anísio Costa Castelo Branco afirma ainda que os recursos utilizados pela Go Up foram movimentados por “meios formais, rastreáveis e documentalmente identificáveis”, e que não foi constatado o uso de recursos públicos, incentivos ou da Lei Rouanet.
“Quanto à origem dos recursos financeiros, a perícia constatou que os ingressos vinculados ao projeto possuem origem privada, comprovada por contratos de investimento, extratos bancários, documentos de remessa e demais registros financeiros disponibilizados para análise”, diz a perícia.
Segundo o IPI, para realizar a análise, foram examinadas as entradas e saídas financeiras dos extratos bancários da produtora. Foram consideradas despesas de produção, equipe técnica, fornecedores, logística, hospedagem, alimentação, segurança, infraestrutura e equipamentos tanto da produção no Brasil quanto nos Estados Unidos.
O instituto, no entanto, não apresenta no documento a origem dos recursos. A entidade alega que os contratos analisados possuem “natureza confidencial” por cláusulas da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
A perícia cita o contrato firmado entre a produtora e o fundo Havengate em 24 de fevereiro de 2025 para investimento no filme. O aporte realizado pelo fundo totaliza os US$ 13 milhões (R$ 75 milhões) utilizados para realizar a obra.
O Havengate é suspeito de ter sido o fundo utilizado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para custear o “Dark Horse”. A PF (Polícia Federal) ainda estuda formas para quebrar o sigilo do fundo.
“Dark Horse” é uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. Segundo a perícia, a obra se caracteriza como uma produção audiovisual “de caráter ficcional”, embora seja “livremente inspirada” na figura do ex-presidente.
A expressão em inglês é usada para se referir a um competidor que tem poucas chances de vitória, e que, por isso, pode surpreender – em alusão à vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018.
Estreia pode ser adiada
Originalmente previsto para estrear em 11 de setembro deste ano, “Dark Horse” pode ter a estreia adiada para depois das eleições. A CNN apurou que a organização do filme avalia uma mudança na data de lançamento para evitar eventual impedimento da exibição.
A obra é esperada por bolsonaristas, que tinham a expectativa de utilizá-la durante a campanha eleitoral. No entanto, a sua estreia ficou em xeque depois de serem revelados áudios de Flávio Bolsonaro, que é pré-candidato à Presidência, e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master investigado por um esquema de fraudes bilionário.
Nos áudios, Flávio cobra dinheiro de Vorcaro para a produção do filme. Apesar de a perícia ter constatado R$ 75 milhões como gasto total do filme, o senador teria negociado um repasse de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões.
Além disso, levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo e confirmado pela CNN Brasil mostrou que deputados estaduais de São Paulo destinaram ao menos R$ 700 mil a entidades ligadas à produtora do filme.
Operação contra Go Up
Em 1º de junho, a Polícia Civil realizou a Operação Wi-Fi Livre para investigar uma possível relação entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB (Instituto Conhecer Brasil), de Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora Go Up Entertainment, que fez o filme “Dark Horse”.
A investigação apura fraudes em licitação da prefeitura no valor de R$ 108 milhões. São investigadas eventuais irregularidades na operação de pontos de acesso à rede de wi-fi pública em comunidades da capital paulista, no contexto do programa WiFi Livre SP.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), já havia se posicionado acerca da investigação. Segundo ele, a operação “não tem nada a ver com o filme” sobre a história do ex-chefe do Executivo.

