O senador Jaques Wagner (PT-BA) declarou ser inocente nesta sexta-feira (31) de um suposto envolvimento com o escândalo do extinto Banco Master. Investigado pela PF (Polícia Federal), ele disse que o inquérito serve para “afastar a culpa”, mas evitou comentar sobre o caso.

“O [meu] advogado e o pessoal de imprensa pedem para nem falar sobre isso. Dizem tudo que se está sendo investigado, é direito seu [Jaques] ficar em silêncio, mesmo diante da imprensa. Então peço até desculpa, ele pede para não falar. Mas vou citar uma frase no texto do ministro André Mendonça, que diz: ‘o inquérito, a investigação, serve até para afastar a culpa’, afirmou à rádio Baiana FM.

“Então, eu tenho certeza de que vou provar minha inocência. O inquérito, evidentemente, demora um tempo. Eu agora estou focado na eleição. Temos dois meses para a eleição. Sábado vai ser a nossa convenção com a presença do [presidente] Lula”, completou.

Jaques ainda afirmou que recebe apoio do chefe do Executivo, mesmo depois de deixar a liderança do governo no Senado Federal diante das investigações da PF. “Estive com ele [Lula] quatro, cinco dias depois do episódio. Entreguei o cargo a ele para não contaminar, para não perturbar. Ele esteve aqui na inauguração do Hospital de Alagoinhas, fez questão de fazer uma referência a mim muito carinhosa e elogiosa, e amanhã vai estar comigo aqui [na Bahia]”, disse.

Mesmo sendo alvo da PF, Jaques Wagner comentou sobre a pré-candidatura ao Senado. “Eu, sinceramente, estou bastante agradecido, inclusive, ao carinho do povo nos PGP [Programa de Governo Participativo] em que andei. Não teve zero de problema. Ao contrário, eu só recebi muitos: ‘Vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá.'”

Segundo a investigação, Wagner mantinha uma relação de confiança com Augusto Ferreira Limaex-sócio da instituição financeira, conhecido como “Guga”. A PF sustenta que esse vínculo também aproximou o parlamentar de Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, e criou canais para tratar de pautas legislativas e operações de interesse do Master.

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e relator do caso, André Mendonça, tornou públicos os documentos da PF que detalham vínculo entre Jaques e executivos ligados ao Banco Master na quinta-feira (30). O senador foi alvo de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho.

Segundo a Polícia Federal, há indícios de que o senador recebeu vantagens econômicas de gestores do Master em possível contrapartida à atuação parlamentar em temas de interesse da instituição.

Entre elas, estão as tratativas da compra de um apartamento de R$ 2,5 milhões para o senador, que teria seguido o mesmo esquema usado na aquisição de imóveis dados como propina ao ex-presidente do BRB (Banco Regional de Brasília), Paulo Henrique Costa.

Relação com ex-sócio de Vorcaro

A PF descreve como “longa e duradoura” a relação entre Wagner e Augusto Lima. Mensagens analisadas pela corporação mostram encontros entre as famílias, viagens e demonstrações de proximidade.

Em outubro de 2023, o senador e a mulher aceitaram convite para passar um fim de semana na chamada Ilha da Paixão, imóvel então sob controle de Augusto. O deslocamento teria sido feito em aeronave ligada ao empresário.

Após a viagem, a mulher do senador escreveu à família de Augusto: “A gente ama vcs”. O ex-executivo respondeu: “Amamos vocês!!”. Para a PF, trocas como essa ajudam a demonstrar o grau de confiança entre os dois núcleos familiares.

Levantamento da corporação mostra ainda que o senador e Augusto Lima trocaram 74 ligações entre novembro de 2023 e maio de 2025, somando cinco horas e 30 minutos de conversa.

Os investigadores também identificaram uma lista intitulada “Lembranças de Fim de Ano”, enviada pela secretária de Augusto no dia 17 de dezembro de 2024. O documento reunia autoridades que receberiam presentes de Natal, entre elas:

  • Bruno Reis, prefeito de Salvador;
  • Jaques Wagner, senador e então líder do Governo Lula no Senado;
  • Rui Costa, então ministro da Casa Civil;
  • ACM Neto, ex-deputado federal e candidato ao governo da Bahia;
  • Antônio de Rueda, presidente nacional do União Brasil;
  • Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia.

Na sequência, a secretária enviou uma lista de vinhos com preços entre R$ 2.500 e R$ 5.300. Fotografias posteriores mostram embalagens destinadas a “Jaques” e a “Tio Guiga”, referência a Guilherme Sodré, pessoa próxima ao senador.

A CNN Brasil tenta contato com a defesa do senador e com o Palácio do Planalto.