A PF (Polícia Federal) afirmou em relatório de inquérito preliminar que mensagens e documentos apreendidos na investigação sobre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, apontam para uma atuação conjunta com o senador Ciro Nogueira (PP-PI) em projetos de lei de interesse do banqueiro, em uma relação marcada pela “convergência de interesses ilícitos” e pelo benefício mútuo.

Segundo o relatório da PF, conversas de novembro de 2023 mostram que Vorcaro determinou a retirada de envelopes na residência do senador que, supostamente, continham minutas de projetos legislativos.

Os documentos teriam sido levados a um escritório indicado pelo banqueiro para revisão e, posteriormente, entregues a um assessor lotado no gabinete de Ciro no Senado.

Para os investigadores, a dinâmica revela uma atuação “pouco usual” no processo legislativo. De acordo com a PF, projetos de lei de interesse de um particular eram retirados da casa de um senador, encaminhados para análise fora do Congresso e depois devolvidos ao gabinete parlamentar por intermédio de terceiros.

O relatório também destaca que Vorcaro teria adotado cuidados para evitar a associação direta dos documentos ao senador ou ao Banco Master.

Entre as precauções apontadas está a orientação para que o motorista responsável pela entrega não vinculasse o transporte do material ao parlamentar e para que os envelopes não fizessem referência à instituição financeira.

Alguns dos projetos mencionados pela investigação são o que criou o Paten (Programa de Aceleração da Transição Energética), de autoria do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), e o que instituiu o SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa), apresentado pelo senador Chiquinho Feitosa.

A PF também sustenta que as mensagens revelam elevado grau de proximidade entre Vorcaro e Ciro Nogueira. Os investigadores citam conversas com expressões como “saudades”, “como você está, meu amigo?” e “quero lhe ver”, além de registros de encontros frequentes, viagens internacionais e reuniões em ambientes privados.

Em um dos trechos destacados pela corporação, Vorcaro descreve Ciro Nogueira à então namorada como “um dos meus grandes amigos de vida”.

Para a Polícia Federal, porém, a amizade não se limitava ao plano pessoal. O relatório afirma que o vínculo teria caráter “funcional e instrumental”, estruturado em torno de interesses comuns.

Segundo os investigadores, Ciro Nogueira atuaria para defender interesses do banqueiro no Senado, enquanto Vorcaro ofereceria vantagens indevidas, como pagamentos periódicos, aquisição de participações societárias com deságio e custeio de viagens internacionais de alto padrão.

“Tal vínculo de amizade transcende a mera relação pessoal, revelando-se, na verdade, uma relação funcional e instrumental, estruturada a partir da convergência de interesses ilícitos e orientada pelo benefício mútuo extraído por cada um dos envolvidos”, afirma a PF.

Segundo o relatório, Ciro teve um “benefício econômico direto” de ao menos R$ 468 mil em viagens e jantares em quatro países pagos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

O documento foi enviado ao ministro André Mendonça, relator da investigação sobre as fraudes de Vorcaro e do Banco Master, no dia 20 de março deste ano. O senador foi alvo de busca e apreensão pela PF no início de maio.

A informação foi tornada pública nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça, pouco depois de o ministro Gilmar Mendes marcar o julgamento sobre a prisão de Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo de Daniel, respectivamente.

Gilmar havia pedido vista e, quando a análise do caso foi iniciada, Mendonça mantinha a íntegra da apuração sob sigilo.