Os custos de financiamento de longo prazo do Reino Unido atingiram 6% pela primeira vez em quase três décadas, tornando o país a primeira economia do G7 a pagar uma taxa tão elevada desde o auge da crise do euro, em 2012.

O movimento, que levou os rendimentos dos títulos britânicos de 30 anos (gilts) ao maior nível desde março de 1998, ocorreu em meio a uma nova onda de vendas nos mercados globais de renda fixa, impulsionada pelo temor de que a disparada dos preços do petróleo reacenda a inflação. O rendimento dos gilts de 30 anos chegou a subir sete pontos-base, para 6,02%, nesta quinta-feira, antes de reduzir parte dos ganhos.

Os Treasuries americanos também começaram o dia em queda, chegando a levar o rendimento do título de referência de 10 anos ao maior nível desde 2002. Já os títulos da França foram pressionados por preocupações de que o governo tenha dificuldades para controlar seu elevado déficit orçamentário.

A dependência do Reino Unido de energia importada e a fragilidade de suas contas públicas tornam o mercado de títulos do país especialmente vulnerável ao temor de que bancos centrais precisem elevar os juros de forma mais agressiva para manter a inflação sob controle. Isso aumenta a pressão justamente quando o primeiro-ministro Andy Burnham e o ministro das Finanças, John Healey, se preparam para apresentar seu primeiro orçamento, em 28 de outubro.

“Preços mais altos do petróleo, números mais fortes de inflação na Europa e a continuidade da liquidação global dos títulos de prazo mais longo pesaram sobre o sentimento em relação aos títulos do governo britânico”, disse Evelyne Gomez-Liechti, estrategista de múltiplos ativos da Mizuho International.

“Parece mais um movimento global do que algo específico do Reino Unido”, afirmou Agne Stengeryte, estrategista de juros do Bank of America.

Ainda assim, a alta representa uma dor de cabeça para as autoridades britânicas. Segundo dados do governo, os custos de serviço da dívida do Reino Unido só ficam atrás dos gastos com saúde. O Escritório de Responsabilidade Orçamentária (OBR) projeta que essa despesa seguirá aumentando nos próximos anos.

O mercado de swaps agora precifica quatro altas de juros pelo Banco da Inglaterra até o fim do próximo ano.

Crise do euro

A última nação do G7 a registrar custos de financiamento de longo prazo acima de 6% foi a Itália, em 2012, quando a zona do euro ainda enfrentava uma crise de dívida soberana e do sistema bancário. O estresse financeiro e os resgates acabaram levando o Banco Central Europeu a intervir para proteger a moeda única.

Os títulos públicos vêm recuando em todo o mundo à medida que os preços elevados do petróleo, ligados à guerra no Oriente Médio, se espalham pela economia global e levaram o Federal Reserve a elevar os juros no mês passado.

Ao mesmo tempo, os elevados déficits públicos e os investimentos maciços em infraestrutura de inteligência artificial aumentam a demanda por capital e fortalecem as expectativas de crescimento, contribuindo para a alta dos custos de financiamento.

Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos dos EUA chegaram a subir quatro pontos-base, para 5,33%, nesta quinta-feira, enquanto o petróleo Brent avançava quase 3%, superando US$ 100 por barril.

“Quanto mais os rendimentos sobem, impulsionados pelos Estados Unidos, maior é o dano colateral para os demais países”, disse Megum Muhic, da RBC.

Os títulos franceses foram fortemente pressionados antes de se recuperarem. A perspectiva de uma eleição presidencial no próximo ano, colocando extrema direita e extrema esquerda frente a frente, reduziu o apetite dos investidores pela dívida do país.

Os rendimentos dos títulos franceses de 10 anos chegaram a subir 11 pontos-base, para 4,97%, enquanto o prêmio exigido pelos investidores para deter papéis franceses em vez dos mais seguros títulos alemães avançou seis pontos-base, para 133 pontos-base.

O movimento, porém, foi revertido mais tarde na sessão de quinta-feira. Os títulos franceses e alemães passaram a registrar ganhos após uma queda nos preços do diesel.

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