Uma eventual derrota dos republicanos nas eleições legislativas dos Estados Unidos pode abrir espaço para uma relação menos conflituosa entre Washington e Brasília. Mas o resultado não significa que Donald Trump será obrigado a abandonar as tarifas comerciais ou rever suas posições em relação ao governo brasileiro.

Essa é a avaliação apresentada pela professora de Relações Internacionais Ana Carolina Marson, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), durante o Mapa de Risco especial sobre as eleições de meio de mandato dos EUA, programa de política do InfoMoney.

Para ela, uma maior presença democrata no Congresso poderia ampliar a fiscalização sobre as decisões de política externa e estimular uma postura mais negociadora. O limite é que Trump continuaria responsável pela condução das relações diplomáticas americanas.

“Acredito que possa ter uma melhoria das relações, mas que essa melhoria não significa uma mudança completa”, afirmou.

Os americanos vão às urnas na terça-feira (3) para renovar a Câmara dos Representantes e parte do Senado. O resultado definirá se Trump manterá uma maioria legislativa favorável durante os dois últimos anos de seu mandato.

O que o Congresso pode mudar

O principal ponto de interesse econômico para o Brasil é a política tarifária americana. Em julho, o governo Trump anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, com exceções previstas na medida. A cobrança entrou em vigor no dia 22 daquele mês, sob a Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.

A Constituição americana atribui ao Congresso competência para legislar sobre comércio exterior e tarifas. Ao longo dos anos, porém, o Legislativo transferiu parte dessa autoridade ao Executivo, permitindo a adoção de medidas comerciais em circunstâncias específicas.

Por isso, uma maioria democrata poderia pressionar por mudanças nessas autorizações, convocar autoridades e ampliar o escrutínio sobre as justificativas econômicas das tarifas. Mas não teria poderes para cancelar automaticamente todas as medidas presidenciais.

A professora considera que uma alteração no equilíbrio político de Washington poderia favorecer negociações, embora os interesses comerciais americanos continuassem orientando as decisões.

Brasil entre Estados Unidos e China

Outro elemento discutido no programa foi a importância estratégica do Brasil na disputa entre Washington e Pequim. A China ocupa posição central no comércio exterior brasileiro, enquanto os Estados Unidos continuam sendo parceiros relevantes para exportações, investimentos e tecnologia.

Além disso, o interesse internacional por terras raras e outros minerais críticos amplia a importância do país nas negociações entre as duas potências.

O repórter de internacional do InfoMoney André Lucena defendeu que a estratégia brasileira deve preservar espaço de negociação com os dois lados.

“O Brasil está no centro de uma hipotética disputa entre Estados Unidos e China, e com uma posição muito pragmática”, afirmou.

Para Lucena, a competição internacional também cria oportunidades para o Brasil atrair investimentos, desde que consiga negociar condições favoráveis e preservar seus interesses econômicos.

Pragmatismo ou confronto

A relação entre Lula e Trump acrescenta uma dimensão política ao debate. Durante o programa, Lucena avaliou que o presidente americano precisa conciliar sua identificação ideológica com setores da oposição brasileira e a necessidade de manter relações institucionais com o governo Lula, reeleito em outubro.

Na avaliação do especialista, o pragmatismo diplomático tende a ganhar importância quando estão em jogo interesses comerciais e estratégicos.

Ana Carolina fez uma ressalva semelhante ao discutir a possibilidade de maior influência democrata sobre a política externa americana.

Segundo ela, embora os democratas historicamente adotem uma postura mais favorável ao multilateralismo, também priorizam os interesses dos Estados Unidos.

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