Os primeiros dias do segundo turno produziram mudanças claras nas duas campanhas presidenciais. Lula (PT), que terminou atrás de Flávio Bolsonaro (PL), iniciou uma revisão da comunicação, ampliou o espaço de aliados e passou a buscar mais confronto direto.

Flávio, por sua vez, aproveitou a vantagem nas urnas para detalhar propostas econômicas e institucionais e acelerar a incorporação de partidos do Centrão.

No primeiro turno, Flávio recebeu 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula. A diferença de 1,87 ponto percentual obrigou o PT a rever uma campanha que o próprio presidente classificou nesta quarta-feira (7) como a “menos organizada” de que participou desde 1989.

Lula reconhece falhas e muda a comunicação

A principal revisão no campo petista está na comunicação. Lula reconheceu dificuldades nas redes sociais e na organização da campanha, enquanto aliados passaram a cobrar uma linguagem mais direta e maior presença digital.

Camilo Santana e Rui Costa passaram a ter maior participação na coordenação, e Geraldo Alckmin deve ganhar mais espaço no segundo turno. A campanha também incorporou integrantes de equipes vencedoras no Nordeste para reforçar estratégia e mobilização.

Nas redes, Lula começou a aparecer mais em vídeos curtos e conteúdos menos produzidos. A campanha também pretende ampliar entrevistas em rádio e ações com influenciadores, mirando sobretudo jovens, mulheres, eleitores que escolheram outros candidatos e os mais de 33 milhões que se abstiveram no primeiro turno.

Mais confronto com Flávio

A postura diante do adversário também mudou. Depois de evitar debates na primeira fase, Lula passou a defender confrontos diretos no segundo turno. A estratégia inclui comparar programas e aumentar o custo político de posições de Flávio em temas de forte apelo popular.

A escala 6×1 virou um exemplo. Lula passou a acusar o PL de tentar dificultar a tramitação da proposta que reduz a jornada semanal, enquanto Flávio classificou a discussão neste momento como oportunista e vinculada à campanha petista.

O PT também pretende enfatizar Bolsa Família, renda e outros programas sociais, numa tentativa de reconstruir conexão com segmentos de baixa renda e elevar a rejeição ao adversário.

Flávio sai do discurso genérico e detalha propostas

Do lado do PL, a mudança mais visível está no conteúdo. Durante o primeiro turno, parte relevante da campanha ficou concentrada em segurança, crítica ao governo e temas associados ao bolsonarismo. Nesta semana, Flávio passou a detalhar mais sua agenda econômica e constitucional.

Na quarta-feira, afirmou que pretende propor mudanças na reforma tributária, no Judiciário, na maioridade penal e nas regras de reeleição. Disse ainda que pretende usar o início de um eventual mandato para aprovar uma PEC que acabe com a reeleição consecutiva.

Na reforma tributária, sua equipe passou a defender mudanças no sistema aprovado pelo Congresso. Daniella Marques, responsável pelo núcleo econômico da campanha, afirmou que um governo Flávio pretende acabar com o split payment, mecanismo que separa automaticamente os tributos no momento do pagamento.

A campanha também tenta aproveitar a percepção de parte do mercado de que um governo do PL poderia adotar uma política fiscal mais restritiva. Essa expectativa, porém, ainda depende de maior detalhamento sobre cortes de despesas, dívida e equipe econômica.

6×1 tenta falar com trabalhador

A resposta de Flávio à proposta da escala 6×1 ilustra outra mudança de posicionamento. O candidato afirmou ser favorável a mais tempo de descanso, mas evitou apoiar a PEC defendida pelo governo.

Argumentou que uma redução de jornada precisa considerar emprego, renda e endividamento e criticou a tentativa de votar o texto durante o segundo turno.

A posição permite à campanha dialogar com o tema sem assumir o texto do Planalto, enquanto mantém uma agenda econômica mais próxima de flexibilização das relações de trabalho.

Centrão amplia palanque de Flávio

Outra diferença em relação ao primeiro turno está na composição política. PP e União Brasil, que haviam permanecido neutros, formalizaram apoio a Flávio. Tarcísio de Freitas também passou a atuar diretamente na tentativa de levar o Republicanos para o mesmo campo.

A campanha usa essas adesões para ampliar estrutura nos estados e demonstrar capacidade de formar uma base parlamentar para 2027.

Lula responde tentando preservar dissidências dentro dessas siglas e se aproximar de lideranças como Geraldo Alckmin, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, além de setores do PSD e MDB.

Segundo turno começa mais programático

A primeira fase da campanha foi marcada por forte concentração em temas políticos, judiciais e de segurança. O início do segundo turno mostra maior espaço para questões econômicas e sociais.

Lula procura corrigir problemas de comunicação e transformar programas do governo em argumentos eleitorais mais concretos. Flávio tenta preencher lacunas do primeiro turno apresentando propostas sobre impostos, jornada de trabalho, regras constitucionais e funcionamento do Estado.

Com apenas dois candidatos, as diferenças passam a ser mais diretamente comparáveis. Essa mudança deve aparecer nos debates e na propaganda eleitoral, que agora têm menos espaço para dispersão temática e mais pressão para que cada lado explique como pretende governar a partir de 2027.

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