A Polícia Federal aponta que o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) buscou influência junto a ministros de tribunais superiores para tentar obter decisões favoráveis em processos de interesse de sua mulher, a advogada Valéria Rodrigues Linhares, e de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, ex-assessora do deputado Arthur Lira (PP-AL) apontada como responsável por operar o Orçamento Secreto. As suspeitas foram identificadas a partir de mensagens extraídas do celular de Fialek.

Segundo a investigação, os diálogos indicam uma atuação coordenada entre os três, em que Cezinha seria responsável pelos contatos pessoais com ministros de tribunais superiores.

A PF descreve um padrão que se repetiu nos episódios analisados: Fialek encaminhava ao parlamentar processos; Cezinha dizia que havia “falado”, “despachado” ou “pedido” aos ministros; e, paralelamente, eram firmados contratos de honorários com pagamentos condicionados ao resultado dos processos em questão.

Um dos casos analisados é um recurso apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por uma prefeita do Ceará. O processo buscava anular operações do Ministério Público estadual porque, conforme alegado, a investigação de origem se voltaria contra autoridade com prerrogativa de foro.

Em 12 de junho de 2025, Fialek encaminhou a Cezinha a petição inicial e o andamento do processo e pediu: “Manda notícias”. Ela diz que seria importante que o ministro Nunes Marques pedisse vista. O deputado respondeu que seria atendido pelo magistrado às 16h. Procurado para comentar, o ministro não se manifestou.

“Deixa ver se entendi. Estará com min kassio as 16? Ou sobre Ceará?”, disse Fialek.

“Assunto 1” […] “Já falei ontem com André e Antonio Carlos sobre esse tema. Ok? Entendeu?” (…) Eu havia pedido a ele para me atender hoje cedo, ele não consegui me atender, marcou para falar comigo por vídeo às 16:00. Ministro Kassio. Ai vou pedir a ele. / Ontem a noite já avisei aquela pessoa que tinha um tema para tratar com ele, fiquei só de mandar o número. Vou mandar jaja antes de falar às 16:00 com o ministro Kassio. Foi até bom que ele vai ver se de fato eu preciso pedir expressamente”, respondeu Cezinha.

Nunes Marques não pediu vista. Meses depois, o julgamento terminou na Segunda Turma com resultado favorável aos interesses de Fialek. Votaram a favor os ministros Gilmar Mendes, Nunes Marques e Dias Toffoli, com o voto contrário de Edson Fachin. O ministro Luiz Fux não se manifestou na ocasião.

A PF aponta ainda que, no dia 18 de junho de 2025, Fialek encaminhou a Cezinha o resumo de um caso envolvendo outro prefeito do Ceará. Os documentos têm os nomes de Nunes Marques, Gilmar Mendes e André Mendonça.

Em agosto de 2025, depois de uma resposta protocolar do gabinete de Nunes Marques a um pedido de audiência, Fialek demonstrou irritação e disse que ficou “arrasada”.

Cezinha respondeu: “Calma” e disse que iria “sentir” a situação pessoalmente.

Para a Polícia Federal, o conjunto das conversas indica uma “parceria” entre Mariângela e Valéria para obter decisões favoráveis em processos no Supremo, “contando com o auxílio de Cezinha de Madureira”. A corporação afirma que a apuração busca esclarecer a existência e a extensão de uma estrutura destinada à “comercialização de influência” perante ministros do STF, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ministros não são investigados

A PF faz uma ressalva de que os ministros não são alvos da apuração. A informação policial afirma que não há, nos elementos reunidos, notícia de solicitação, aceitação ou recebimento de vantagem indevida por integrantes do Judiciário, nem de decisão judicial tomada em desconformidade com o direito.

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