Durante meses, Cleitinho ocupou uma posição aparentemente confortável na disputa pelo governo de Minas Gerais. Mesmo resistindo em confirmar que seria candidato, aparecia à frente dos adversários nas pesquisas e era tratado como o nome mais competitivo da direita no estado. O cenário, no entanto, mudou rapidamente.

Após faltar à convenção do Republicanos e ver o partido passar a apoiar o ex-secretário Marcelo Aro (PP), o senador deixou de ser o favorito natural da disputa. O episódio chamou atenção porque rompeu uma lógica tradicional da política. Pela primeira vez em muito tempo, um líder nas pesquisas perdeu a candidatura antes mesmo do início oficial da campanha.

Para o head de análise política da XP, Paulo Gama, o problema não foi falta de votos, mas de construção política.

“Ele perdeu o timing. Ele tinha um potencial de construir a candidatura. A partir do momento em que tinha essa intenção de voto, conseguiria mudar um pouco o perfil e tentar se mostrar para a política institucional como alguém mais confiável. Mas preferiu um caminho distinto e a gente viu outras candidaturas se articulando e aparecendo”, afirmou.

Segundo Paulo, o caso evidencia que intenção de voto e confiança política passaram a caminhar em trilhos diferentes.

“A gente não tinha clareza de qual caminho ele seguiria e nem muita confiança de que, uma vez consolidada a candidatura, seria um palanque sólido para uma candidatura de oposição ao Lula”, disse.

Na avaliação do analista, o Republicanos e os demais partidos da direita enxergavam em Cleitinho um candidato forte eleitoralmente, mas imprevisível do ponto de vista político.

“Ele era alguém com potencial de voto muito grande, mas com pouca confiabilidade da política institucional”, resumiu.

Para o cientista político Jorge Chaloub, professor da UFRJ, a dificuldade não se resume às relações partidárias. Há também um cálculo sobre os riscos de assumir o comando de um estado altamente endividado e sem uma base política consolidada.

“Tem um fantasma que assombra esse tipo de candidato, que é o fantasma do Wilson Witzel”, afirmou.

Na comparação feita pelo professor, assim como ocorreu com o ex-governador do Rio de Janeiro, uma vitória impulsionada pela popularidade pode rapidamente se transformar em desgaste quando não existe sustentação política para governar.

“O Witzel teve uma vitória meteórica. Por não conseguir articular uma base de governo, perdeu rapidamente o apoio. Me parece que existe um temor do Cleitinho de reproduzir esse cenário: chegar ao governo mobilizando o eleitorado, mas sem apoio suficiente para governar”, avaliou.

Outro fator apontado pelos especialistas é que a independência política que ajudou Cleitinho a construir sua imagem também acabou afastando os partidos.

Ao longo da carreira, o senador cultivou a identidade de político avesso às estruturas tradicionais e costuma afirmar que não pertence nem à direita nem à esquerda. Para Chaloub, esse perfil dificultou a formação de uma coalizão estável.

“A construção da trajetória do Cleitinho não se mostrou confiável o suficiente para compensar os acordos partidários. Os dirigentes partidários têm receio de apoiar alguém sem a certeza de que também participarão do governo depois”, afirmou.

O episódio também revela uma mudança na lógica das campanhas estaduais. Se antes liderar as pesquisas praticamente assegurava uma candidatura competitiva, hoje os partidos parecem exigir mais do que intenção de voto.

Popularidade continua sendo um ativo importante, mas deixou de ser suficiente. A capacidade de formar alianças, construir uma base legislativa e oferecer previsibilidade passou a pesar tanto quanto o desempenho nas pesquisas.

Na avaliação de Chaloub, a própria hesitação do senador acabou acelerando esse processo.

“O candidato titubeou, perdeu o timing. E o próprio partido aproveitou essa dúvida para montar um arranjo que julgava mais estável politicamente”, afirmou.

O “Mapa de Risco”, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.

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