O senador Flávio Bolsonaro (PL) não participou do primeiro debate presidencial de 2026, promovido pela Band neste domingo (23), mas aproveitou o horário do confronto para fazer um dos acenos mais explícitos de sua campanha ao eleitorado evangélico. Em vídeo publicado nas redes sociais, o senador prometeu que, se eleito, um de seus primeiros atos será declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A frase apareceu em meio a uma sequência de ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que também faltou ao encontro. Depois de associar o governo à perda de poder de compra, ao endividamento e às dificuldades enfrentadas pelas empresas, Flávio levou a disputa para o campo religioso.

“Eu quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, afirmou.

Mais do que uma declaração isolada, o discurso se encaixa em uma estratégia que acompanha Flávio desde o início da corrida presidencial para preservar a forte identificação construída pelo bolsonarismo com os evangélicos e transformar esse eleitorado em uma das principais bases de sua candidatura.

Os números mostram por que esse segmento é decisivo. No Datafolha divulgado neste fim de semana, Flávio alcança 62% das intenções de voto entre evangélicos em uma eventual disputa de segundo turno contra Lula, que registra 29%.

No conjunto do eleitorado, a diferença é muito menor: Lula aparece com 47%, diante de 43% do candidato do PL. A pesquisa ouviu 2.058 pessoas nos dias 18 e 19 de agosto e está registrada no TSE sob o número BR-04496/2026.

A Genial/Quaest também vem mostrando vantagem do senador nesse público. Em levantamento citado pela campanha petista neste mês, Flávio aparecia com 48% entre os evangélicos, ante 33% de Lula. O segmento representa cerca de 27% da população e é tratado pelas duas campanhas como um dos grupos que podem influenciar diretamente o resultado da eleição.

Vantagem em fidelidade

A vantagem atual, porém, não esteve garantida durante toda a pré-campanha. No começo do ano, Flávio encontrou resistência entre lideranças evangélicas importantes, que ainda defendiam uma candidatura de Tarcísio de Freitas com Michelle Bolsonaro.

Pastores mantinham diálogo com o senador, mas demonstravam cautela em reconhecê-lo como herdeiro político de Jair Bolsonaro na disputa presidencial. Como mostrou o InfoMoney em janeiro, a avaliação de parte dessas lideranças era de que Tarcísio teria maior capacidade de ampliar o voto conservador para além do núcleo bolsonarista.

A relação com os evangélicos voltou a preocupar a campanha em junho, após a crise pública entre Flávio e Michelle Bolsonaro.

A ex-primeira-dama construiu nos últimos anos uma rede própria entre igrejas, mulheres conservadoras e lideranças religiosas. Por isso, o rompimento entre os dois atingiu justamente um dos ativos de que Flávio precisava para preservar sua vantagem nesse público. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada após a crise mostrou queda de oito pontos do senador entre evangélicos.

Desde então, a campanha procurou reconstruir essa ponte. Flávio confirmou Michelle em sua propaganda eleitoral, movimento visto dentro do PL como importante para recuperar o diálogo com mulheres e evangélicos.

Espaço na campanha

A promessa feita neste domingo também dá continuidade a uma linguagem que Flávio já havia usado em eventos religiosos. Na Marcha para Jesus, em São Paulo, em junho, o então pré-candidato afirmou que o país vivia uma “guerra espiritual” e disse que o “mal” seria retirado do governo nas eleições.

Foi sua primeira participação no evento como candidato presidencial e marcou uma tentativa explícita de ocupar o espaço político e religioso associado ao pai.

Agora, ao dizer que pretende decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo, Flávio avança mais um passo nessa construção.

A declaração não apresenta uma política pública destinada ao segmento. Funciona sobretudo como símbolo de identificação para buscar aproxima o candidato de valores religiosos presentes em parte importante de sua base e, ao mesmo tempo, cria um contraste com Lula.

Esse contraste também interessa eleitoralmente ao PT. A campanha de Lula já discute ampliar sua presença entre evangélicos e chegou a avaliar a realização de um ato específico para esse público, especialmente no Rio de Janeiro. A iniciativa divide aliados, entre os que defendem uma abordagem direta e aqueles que temem uma politização ainda maior da religião.

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