O encontro promovido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com mulheres conservadoras, marcado para esta quarta-feira (1º), deve ganhar as atenções de aliados e de coordenadores da campanha do pré-candidato à Presidência da República.

A dúvida sobre a participação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro transformou o evento em um primeiro teste público da capacidade de reconstrução da relação entre duas das principais lideranças do bolsonarismo.

A expectativa dentro do partido era de que Michelle comparecesse ao encontro como um gesto de pacificação após a crise aberta na semana passada. Até o momento, porém, sua presença continua indefinida.

A ausência teria peso político porque o evento foi desenhado justamente para aproximar Flávio de um segmento no qual Michelle exerce influência: o eleitorado feminino conservador. Desde que passou a comandar o PL Mulher, a ex-primeira-dama consolidou uma base própria de apoio, especialmente entre evangélicos e militantes mais identificados com as pautas de costumes.

Um público estratégico para Flávio

Aliados do senador reconhecem que parte desse eleitorado ainda demonstra resistência ao seu nome como candidato à Presidência.

A estratégia da campanha passa por reduzir essa distância e ampliar a identificação de Flávio com um grupo que, nos últimos anos, passou a enxergar Michelle como uma das principais porta-vozes do bolsonarismo.

Por isso, uma eventual participação da ex-primeira-dama teria um efeito simbólico, para transmitir uma imagem de unidade em um momento em que o partido tenta encerrar uma crise exposta nas redes sociais.

Da crítica pública ao convite

O desgaste começou depois que Michelle publicou um vídeo de mais de 20 minutos criticando a decisão do PL de apoiar a pré-candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará.

Ela afirmou ter sido desrespeitada por Flávio durante as negociações e disse que defendia uma composição diferente, com o senador Eduardo Girão (Novo) disputando o governo estadual e a deputada Priscila Costa (PL) concorrendo ao Senado.

Segundo Michelle, o episódio marcou o rompimento da relação entre os dois no fim de 2025.

Flávio evitou responder às acusações diretamente. Dias depois, adotou um tom conciliador e afirmou que “o que está em jogo no Brasil está muito acima de qualquer vaidade”. Também fez um convite público para que Michelle participasse do encontro com mulheres conservadoras, gesto interpretado por integrantes do partido como uma tentativa de encerrar o conflito.

A disputa vai além do Ceará

Embora o desentendimento tenha começado por causa da estratégia eleitoral no Ceará, dirigentes do PL avaliam que a divergência expôs duas leituras distintas sobre o futuro do bolsonarismo.

Michelle representa o grupo mais alinhado ao estilo político de Jair Bolsonaro, tradicionalmente resistente a acordos com antigos adversários e defensor de uma atuação mais ideológica.

Flávio, por outro lado, tem defendido ampliar alianças estaduais para fortalecer sua candidatura presidencial, mesmo que isso envolva composições com partidos ou lideranças que estiveram em campos opostos no passado.

Foi essa lógica que sustentou o apoio à candidatura de Ciro Gomes no Ceará, movimento que acabou desencadeando a reação pública da ex-primeira-dama.

O recado da ausência

Na semana passada, Flávio esteve com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo relatos de parlamentares presentes, Bolsonaro pediu que o episódio fosse superado para evitar desgaste ao grupo às vésperas da campanha.

Michelle também afirmou, após divulgar o vídeo, que apoiará a candidatura do enteado à Presidência.

Ainda assim, sua decisão sobre comparecer ou não ao evento desta quarta-feira passou a ser vista dentro do PL como um indicador do estágio dessa reaproximação.

Se aparecer ao lado de Flávio, a imagem tende a reforçar o discurso de unidade adotado pelos dois nos últimos dias. Se optar por manter distância, permanecerá a percepção de que o conflito político foi amenizado no discurso, mas ainda não completamente superado na prática.

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