WASHINGTON, 4 Ago (Reuters) – Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, após o Brasil não conceder aprovação diplomática formal ao embaixador indicado pelo governo Trump para Brasília e depois de negativa de vistos a diplomatas norte-americanos, disse nesta terça-feira uma autoridade sênior do Departamento de Estado dos EUA.

A medida marca uma escalada no distanciamento cada vez mais profundo entre Trump e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que abalou o comércio entre os países e se tornou um fator na disputa presidencial brasileira de outubro.

O visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti será restabelecido se a situação for resolvida, disse a autoridade norte-americana, que falou com repórteres sob condição de anonimato.

“A medida consistiu na revogação ou cancelamento do visto de uma diplomata sênior aqui. Isso não é o mesmo que expulsar a pessoa do país”, disse a autoridade.

“Isso significa que ela está aqui, mas sem visto, e teria seu visto restabelecido se o equilíbrio fosse restaurado por meio da concessão do agrément ao nosso candidato a embaixador”, disse a autoridade, referindo-se ao procedimento diplomático de aceitação de um embaixador, que geralmente é uma formalidade.

O Brasil vem, há semanas, retendo a aprovação formal de Daniel Perez, deputado estadual da Flórida e aliado próximo do secretário de Estado, Marco Rubio, que foi indicado por Trump para o cargo de embaixador em 1º de junho.

O governo brasileiro rejeitou a decisão dos EUA em um comunicado na noite desta terça-feira, classificando-a como baseada em alegações “falsas” e argumentando que sua análise da candidatura de Perez estava ocorrendo em conformidade com as normas diplomáticas internacionais, entre as quais a de que Washington deveria ter obtido a aprovação do Brasil antes de anunciar a indicação.

A Reuters informou na semana passada, citando fontes, que algumas autoridades do governo Trump estavam cada vez mais exasperadas com a demora de Brasília. Uma fonte afirmou que poderia haver medidas punitivas caso o Brasil continuasse a negar a aprovação necessária para que o próximo embaixador dos EUA assumisse o cargo.

O Brasil também negou vistos no mês passado a dois funcionários do Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado. O governo defendeu essa decisão nesta terça-feira, afirmando que ela se justificava porque esses funcionários “planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”.     

Pesquisas recentes apontam Lula com vantagem na corrida presidencial sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho mais velho do ex-presidente e fervoroso aliado de Trump, Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar depois de ser condenado por tentativa de golpe de Estado.

“Basicamente, tivemos uma situação em que nossos diplomatas estavam sendo impedidos de realizar o trabalho rotineiro comum entre os dois países e, portanto, nessas circunstâncias, com o longo atraso e sem promessa de fim do impasse do agrément, tomamos uma medida recíproca em relação a um diplomata brasileiro aqui para deixar claro que isso não pode ser sempre unilateral”, disse a autoridade.

Troca de acusações

Embora a autoridade não tenha descartado novas medidas, afirmou que Washington atribui grande importância ao relacionamento com Brasília e respeita o povo brasileiro, independentemente do governo que ele escolher por meio de eleições livres e justas.

“Queremos voltar a ter uma relação normal, produtiva e transparente com nossos colegas”, disse a autoridade.

A tensa troca de acusações foi marcada por alegações de ambos os países de interferência indevida nos assuntos internos um do outro.

Questionado na semana passada sobre o atraso do Brasil em conceder o agrément a Perez, um porta-voz do Departamento de Estado disse que o órgão rejeita qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir em processos internos.

Enquanto autoridades do governo Trump acusaram o governo de Lula de censurar conservadores ou de inclinar a balança contra eles em processos judiciais, o Brasil rebateu o que considera esforços dos EUA para influenciar a política latino-americana em favor dos conservadores.

Lula afirmou na semana passada que o Brasil negou vistos a dois diplomatas norte-americanos que vinham “para se intrometer nas eleições brasileiras”.

Trump tem se manifestado abertamente sobre as recentes disputas políticas na América Latina, incluindo as eleições na Colômbia, no Chile e em Honduras. A soberania nacional tornou-se um grito de guerra para Lula, que concorre a um quarto mandato não consecutivo em outubro.

Quando Washington impôs, no mês passado, uma tarifa de 25% sobre vários produtos brasileiros, alegando o que descreveu como práticas comerciais desleais, Lula rapidamente acusou a família Bolsonaro de ajudar a arquitetar as tarifas para obter ganhos eleitorais, o que eles negam.

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