O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pretende usar a audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), nesta terça-feira, em Washington, para recalibrar o discurso adotado pela campanha sobre o tarifaço de 25% proposto pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros e ampliar o embate com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a condução da crise comercial entre os dois países.

Após a repercussão negativa provocada pelo documento em que sugeriu suspender a entrada em vigor das tarifas enquanto Brasil e Estados Unidos negociassem um acordo, aliados afirmam que o foco da apresentação será reforçar que o parlamentar é contrário à sobretaxa, defender o Pix e cobrar uma solução negociada para o impasse comercial.

A estratégia busca responder à ofensiva do Palácio do Planalto, que passou a acusar integrantes da família Bolsonaro de atuar contra os interesses brasileiros ao manter interlocução direta com autoridades americanas durante a investigação comercial.

A avaliação de interlocutores do senador é que a discussão acabou sendo deslocada para a proposta de adiamento das tarifas, enquanto a intenção era defender uma suspensão da medida para abrir espaço a uma negociação. Integrantes da campanha afirmam que a manifestação acabou sendo “mal interpretada” e que Flávio aproveitará a audiência para deixar explícito que sua posição é contrária ao tarifaço sobre produtos brasileiros.

A mudança de tom ocorre depois de dias de troca de acusações entre governo e oposição. Lula afirmou que integrantes da família Bolsonaro estariam trabalhando contra os interesses nacionais ao dialogar diretamente com representantes do governo americano.

Em resposta, Flávio passou a afirmar que o governo estaria explorando politicamente a crise comercial e que sua atuação busca justamente impedir a aplicação das tarifas. Em vídeo divulgado nesta segunda-feira, gravado em Washington, o senador acusou o presidente de usar uma “falsa narrativa” de defesa da soberania e afirmou que Lula seria “o único que quer a tarifa”.

Na avaliação de aliados, a audiência representa a principal oportunidade para reorganizar o discurso antes da decisão do governo americano. O senador desembarcou em Washington no domingo exclusivamente para participar da sessão e deve retornar ao Brasil na quarta-feira. Na sequência, retomará à agenda de pré-campanha, com compromissos em Pernambuco, na quinta-feira, e no Ceará, na sexta-feira.

O governo também decidiu marcar presença na audiência. O Itamaraty informou nesta segunda-feira que enviou uma observadora da Embaixada do Brasil em Washington para acompanhar os dois dias de sessão promovidos pelo USTR. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, a audiência não é considerada um canal formal de negociação entre os governos, mas um espaço destinado a ouvir representantes da sociedade civil e do setor produtivo. A posição do governo é que as tratativas oficiais continuam sendo conduzidas pelos canais diplomáticos.

A última conversa virtual entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, ocorreu na última quinta-feira. O governo brasileiro trabalha para realizar uma nova rodada de negociações antes de 15 de julho, prazo previsto para a decisão americana sobre a eventual aplicação das tarifas.

A audiência promovida pelo USTR começou nesta segunda-feira e é considerada a última etapa pública da investigação comercial aberta contra o Brasil antes da decisão prevista para 15 de julho. Os trabalhos foram divididos em 14 painéis. Sete deles ocorrem nesta segunda-feira e os demais serão realizados na terça, quando Flávio fará sua apresentação.

O senador falará em um dos painéis da manhã, previsto para começar às 10h em Washington (11h em Brasília). Ao lado dele estarão representantes da indústria brasileira, empresas americanas, associações empresariais e especialistas em comércio internacional.

Cada participante terá cerca de cinco minutos para apresentar um resumo executivo da manifestação escrita enviada previamente ao governo americano. O tempo será rigorosamente controlado pelo USTR. Concluídas as exposições, integrantes do órgão poderão fazer perguntas aos participantes, que terão oportunidade de responder aos questionamentos e esclarecer pontos considerados relevantes para a investigação.

A audiência, porém, não terá qualquer deliberação. O objetivo é reunir argumentos técnicos, manifestações do setor produtivo e contribuições dos participantes antes da recomendação que será elaborada pelo USTR e encaminhada ao governo americano. A decisão sobre a aplicação ou não da tarifa adicional de 25% está prevista para 15 de julho. Também não haverá transmissão oficial ao vivo. Como ocorre em outros procedimentos conduzidos pelo USTR, o governo americano deverá divulgar posteriormente a transcrição das apresentações e dos questionamentos feitos durante a audiência.

Tarifas, Pix e bilateralismo

Segundo aliados, Flávio utilizará seus cinco minutos para concentrar o discurso em três eixos. O primeiro será reforçar que é contrário à aplicação das tarifas sobre produtos brasileiros e defender uma solução negociada entre os dois países. A estratégia busca afastar a interpretação de que o senador teria defendido apenas o adiamento das medidas para depois das eleições brasileiras.

O segundo eixo será a defesa do Pix, um dos temas incluídos na investigação comercial americana. O senador repetirá o argumento apresentado no documento de 86 páginas entregue ao USTR de que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos é uma infraestrutura pública administrada pelo Banco Central e não uma empresa que concorra com plataformas americanas. Na avaliação de Flávio, o mecanismo não deveria ser alvo de qualquer medida de retaliação comercial.

Outro ponto da apresentação será a defesa de maior abertura comercial entre Brasil e Estados Unidos. No parecer encaminhado ao governo americano, Flávio afirma que o Brasil precisa “se libertar das amarras do Mercosul” para ampliar acordos bilaterais e negociar diretamente com outros parceiros comerciais. Segundo ele, o bloco acabou impondo restrições que reduziram a competitividade brasileira e limitaram a celebração de novos acordos. A expectativa é que esse argumento também seja explorado na apresentação desta terça-feira.

Integrantes da campanha afirmam ainda que o senador deverá explorar politicamente a diferença entre a estratégia adotada pelo governo brasileiro e sua participação na audiência. Embora o Itamaraty tenha enviado uma observadora para acompanhar os trabalhos, Flávio pretende sustentar que o governo abriu mão de participar diretamente do debate público promovido pelo USTR, enquanto o Planalto afirma que as negociações oficiais seguem sendo conduzidas pelas vias diplomáticas.

A investigação aberta pelos Estados Unidos tem como base a Seção 301 da legislação comercial americana, mecanismo utilizado para avaliar práticas consideradas prejudiciais aos interesses econômicos do país. Entre os temas analisados estão comércio digital, serviços de pagamento eletrônico — incluindo o Pix —, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, tarifas preferenciais, combate à corrupção e desmatamento ilegal.

Além de Flávio, participarão da audiência representantes de diversos setores brasileiros e americanos afetados pela possível sobretaxa. Entre eles está o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, que representará a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Também falarão representantes da indústria calçadista, importadores americanos, entidades do agronegócio e associações empresariais.

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