O cientista político e CEO do instituto de pesquisas AtlasIntel, Andrei Roman, afirmou nesta segunda-feira, 27, que a participação do presidente da Argentina, Javier Milei, na convenção do PL que homologou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência tende a trazer mais prejuízos do que benefícios à campanha do senador.

Durante o evento, Milei atacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a quem chamou de “presidiário” e “ladrão.” O argentino também ofendeu o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, classificando-o como “lixo careca”. A Justiça negou um pedido de Milei para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na convenção, realizada no sábado, 25, Flávio, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), afirmaram que a chamada “onda azul” – expressão usada para descrever as vitórias de candidatos de direita em países latino-americanos – deve chegar ao Brasil em outubro, com a eleição do senador. As declarações foram feitas ao lado de Milei, que derrotou o peronismo na Argentina.

“Seria mais fácil trazer a onda azul para o Brasil se ela estivesse bem nos arredores: se Milei tivesse uma aprovação muito forte de seu governo, se tivéssemos outros governos de direita muito populares na América Latina e se o próprio governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump apresentasse taxas de aprovação impressionantes”, disse Roman em entrevista coletiva após participar de um almoço com empresários.

Na avaliação do cientista político, esses resultados ofereceriam exemplos positivos que poderiam ser explorados pela direita brasileira. Mas Milei ainda enfrenta uma desaprovação próxima de 60%, enquanto Trump chega às eleições de meio de mandato em um contexto adverso e com a possibilidade de um resultado historicamente ruim para o Partido Republicano.

O CEO da AtlasIntel ponderou, todavia, que o campo conservador tem reproduzido uma característica historicamente associada à esquerda: a articulação entre lideranças latino-americanas. Ele citou o Foro de São Paulo como exemplo de espaço no qual dirigentes de esquerda se reuniam para discutir programas, demonstrar solidariedade e manter alianças tanto em momentos favoráveis quanto em períodos de dificuldade.

Segundo Roman, essa articulação tem se consolidado progressivamente entre os movimentos conservadores e representa uma novidade em relação ao cenário de uma década atrás. Para ele, o fenômeno evidencia o fortalecimento das pautas ideológicas na disputa política e é consequência da polarização.

Roman também classificou como um episódio sem precedentes na história recente do País o fato de o presidente argentino vir ao Brasil para participar da campanha de um líder da oposição e fazer declarações pejorativas contra o chefe do Executivo brasileiro e um integrante do STF.

Na avaliação do cientista político, Milei provavelmente não adotaria essa postura se não contasse com o respaldo de Trump. Sem esse apoio, acrescentou, a reação do governo brasileiro poderia ser mais contundente e as consequências diplomáticas para a Argentina, mais graves.

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