O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entra na última semana antes do primeiro turno com uma estratégia de contenção e mobilização. A campanha quer recuperar votos no Nordeste, limitar o avanço de Flávio Bolsonaro (PL) no Sudeste e garantir que sua base compareça às urnas.

A agenda combina viagens, atos de rua e maior exposição do presidente, com foco em temas como Bolsa Família, bets, salário mínimo e jornada de trabalho.

A disputa se apertou. Na Quaest divulgada na segunda-feira (21), Lula aparece com 37% das intenções de voto, contra 33% de Flávio. No eventual segundo turno, o senador registra 42% e o presidente, 41%, dentro da margem de erro.

Nordeste para recuperar margem

Lula ainda lidera com folga no Nordeste, mas a campanha acompanha a redução da distância em algumas pesquisas. Nos próximos dias, o presidente deve passar por Alagoas, Pernambuco, Bahia e Ceará antes de concentrar esforços no Sudeste.

A meta é preservar a liderança e recuperar votos que migraram para candidaturas menores. Levantamento BTG/Nexus mostrou que, entre eleitores que votaram em Lula em 2022, 5% agora preferem Augusto Cury (Avante) e outros 5%, Ronaldo Caiado (PSD). Entre eleitores historicamente alinhados à esquerda, a intenção de voto no presidente caiu de 85% para 79%.

A campanha aposta na força de governadores, prefeitos e lideranças locais. Em Pernambuco, Lula deve participar de ato com o prefeito do Recife, João Campos (PSB). Em Alagoas, a agenda prevê encontro com Renan Filho (MDB).

O Nordeste continua sendo o principal colchão eleitoral do presidente. No Datafolha de 21 de setembro, Lula tinha 56% na região, contra 26% de Flávio. O risco, portanto, não é perder a liderança, mas chegar ao segundo turno com uma vantagem menor que a de eleições anteriores.

Sudeste para conter Flávio

Depois do Nordeste, Lula deve concentrar a campanha em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Os três estados formam os maiores colégios eleitorais do país, e Minas é considerado decisivo pelo equilíbrio histórico nas disputas presidenciais.

Em São Paulo, estão previstos atos nas zonas Leste e Sul da capital, áreas populosas e com forte presença de eleitores de menor renda — justamente o perfil em que Lula mantém vantagem.

No Datafolha, o presidente marcou 46% entre eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, contra 29% de Flávio. Entre pessoas com ensino fundamental, o placar foi de 47% a 30%. Lula também lidera entre eleitores com 60 anos ou mais e católicos.

Flávio, por sua vez, aparece à frente nas faixas de renda mais altas. A campanha petista quer impedir que essa vantagem se amplie nas regiões metropolitanas e elevar o comparecimento entre os grupos em que Lula é mais forte.

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Rua contra a abstenção

A mobilização de rua ganhou peso porque a base de Lula é também a mais exposta à abstenção. A campanha do petista avalia que o presidente precisa intensificar o contato direto com eleitores de baixa renda. O diagnóstico é de que em uma disputa apertada, garantir a presença nas urnas pode ser tão importante quanto conquistar novos votos.

No Datafolha, Lula tem 53% entre eleitores que recebem Bolsa Família ou vivem com algum beneficiário do programa, contra 28% de Flávio. Fora desse grupo, os dois aparecem praticamente empatados: 36% a 37% para o senador.

Transformar essa vantagem social em comparecimento será uma das principais tarefas da última semana.

Renda e bets para mudar a conversa

O governo também tenta tirar a campanha do terreno das crises institucionais e levá-la para o cotidiano das famílias.

O reajuste de 15,04% do Bolsa Família foi o primeiro movimento. Agora, o Planalto prepara novas medidas sobre renda, consumo e endividamento. A ofensiva contra as bets já aparece na propaganda de Lula e foi levada pelo presidente à Assembleia-Geral da ONU.

Analistas apontam que a campanha tenta interromper uma sequência de notícias negativas e temas como Bolsa Família e bets traduzem melhor a disputa em questões de renda, consumo e endividamento do que assuntos como soberania e inteligência artificial.

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Mulheres e jovens

A campanha também mira segmentos em que Lula ainda lidera, mas enfrenta maior dispersão. Mulheres, eleitores de baixa renda, católicos, pessoas com menor escolaridade e beneficiários de programas sociais formam o núcleo mais favorável ao presidente. Entre as mulheres, porém, há mais indecisão: no Datafolha, 26% não citavam espontaneamente um candidato, contra 14% dos homens.

O discurso contra as bets tenta alcançar esse público ao enfatizar perda de renda e endividamento familiar. A campanha também reforça propostas sobre salário, proteção social e jornada de trabalho.

Entre os jovens, o desafio é recuperar eleitores que se aproximaram de Augusto Cury. No início de setembro, o candidato do Avante tinha 14% entre pessoas de 25 a 34 anos, segundo o Datafolha.

Mais confronto com Flávio

A aproximação de Flávio deve levar Lula a adotar um tom mais direto. Durante boa parte da campanha, o presidente evitou tratá-lo como principal adversário e preferiu associá-lo ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Após a viagem à ONU, aliados concluíram que a campanha demorou a responder ao crescimento do senador e apostou demais em agenda positiva e soberania nacional.

Lula agora avalia participar do debate da TV Globo, marcado para 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno. A decisão ainda não foi tomada, mas a possibilidade foi reservada na agenda.

Quanto menor a distância entre os dois, maior o custo de deixar Flávio falar sozinho.

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