O resultado das eleições brasileiras ganhou destaque no Wall Street Journal. Em uma extensa reportagem publicada após a votação, o jornal americano afirma que o desempenho da família Bolsonaro representa mais do que uma recuperação eleitoral: seria reflexo de uma transformação política que vem ocorrendo no Brasil há mais de uma década.

Assinada pela correspondente Samantha Pearson, a reportagem tem como título “Como a família Bolsonaro fez um retorno político meteórico no Brasil”, em tradução livre.

O jornal chama atenção para um contraste: mesmo com Jair Bolsonaro fora da disputa eleitoral, integrantes de sua família conquistaram posições importantes nas eleições de 2026. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno da disputa presidencial à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto outros integrantes da família conquistaram cadeiras no Congresso.

É nesse contexto que a reportagem apresenta uma das frases de maior impacto da análise: “Bolsonaro não é mais apenas um homem, mas uma ideia”.

A avaliação, atribuída pelo jornal a cientistas políticos, sintetiza a tese central da reportagem: o movimento político associado ao ex-presidente teria ultrapassado a figura individual de Jair Bolsonaro e consolidado uma identidade própria entre uma parcela significativa do eleitorado brasileiro.

Mudança anterior a Bolsonaro

Segundo o jornal, mudanças sociais, religiosas, econômicas e geracionais ocorridas nas últimas décadas ajudaram a criar as condições para o fortalecimento do conservadorismo.

Um dos fatores destacados é o crescimento das igrejas evangélicas. De acordo com os dados citados pela reportagem, os evangélicos representam atualmente mais de um quarto da população brasileira, contra cerca de 9% em 1991.

O WSJ também aponta que parte significativa do eleitorado brasileiro historicamente mantém posições conservadoras em temas de costumes, mesmo durante períodos em que partidos de esquerda exerciam maior domínio sobre a política nacional.

A segurança pública aparece como outro componente importante. A violência e a preocupação com a criminalidade teriam contribuído para ampliar o apoio a propostas de endurecimento das políticas de segurança.

Agronegócio

Outro elemento apontado pelo jornal é o crescimento econômico e político do agronegócio.

O WSJ relaciona a expansão do setor, impulsionada inclusive pela demanda internacional por soja, carne e outras commodities brasileiras, ao fortalecimento político de regiões agrícolas onde candidatos conservadores conquistaram grande apoio.

A reportagem também menciona o impacto das crises políticas e econômicas enfrentadas por governos de esquerda em outros países da América Latina, especialmente a Venezuela, tema frequentemente incorporado ao discurso da direita brasileira.

O conjunto desses fatores teria criado um ambiente político diferente daquele observado nas primeiras décadas após a redemocratização.

Novo perfil da direita

O jornal também faz uma análise histórica da relação dos brasileiros com a direita.

Depois do fim do regime militar, em 1985, identificar-se publicamente como alguém de direita carregou durante anos um estigma dentro da política brasileira.

Segundo o WSJ, essa realidade começou a mudar com o surgimento de uma geração sem memória direta da ditadura militar. Para parte desses eleitores, referências políticas negativas mais recentes passaram a estar relacionadas aos escândalos de corrupção e às crises econômicas ocorridas durante governos do Partido dos Trabalhadores.

É nesse cenário que Jair Bolsonaro ganha protagonismo na análise do jornal.

Na interpretação apresentada pela reportagem, Bolsonaro conseguiu dar expressão política a mudanças que já estavam ocorrendo na sociedade e ajudou milhões de brasileiros a assumir abertamente uma identidade política de direita.

Assim, Bolsonaro não teria criado sozinho o conservadorismo brasileiro, mas teria conseguido transformá-lo em uma identidade política organizada e eleitoralmente poderosa.

Para ilustrar essa transformação, o WSJ ouviu Brian Winter, analista especializado em América Latina e editor-chefe da Americas Quarterly.

Segundo Winter, “o Brasil de hoje é um país de centro-direita”.

O analista utiliza ainda uma comparação cultural para descrever as mudanças ocorridas no país. O Brasil internacionalmente associado à bossa nova e ao samba estaria dividindo espaço com outro Brasil, marcado pelo crescimento da cultura sertaneja, do agronegócio, das megaigrejas e de novos centros de consumo.

A comparação reforça um dos principais aspectos da reportagem: a análise não se limita aos números das urnas, mas procura identificar mudanças sociais, religiosas, econômicas e culturais por trás do comportamento eleitoral.

Polarização

A reportagem também apresenta elementos que relativizam a dimensão da vitória conservadora.

O WSJ descreve Flávio Bolsonaro como uma figura polarizadora e menciona pesquisas segundo as quais uma parcela expressiva do eleitorado afirma que não votaria nele.

O jornal observa ainda que nem todos os eleitores identificados com a direita necessariamente consideravam Flávio o candidato ideal.

Ainda assim, o sobrenome Bolsonaro permanece como uma das referências mais reconhecidas entre os eleitores conservadores.

STF

O Wall Street Journal também analisa as possíveis consequências institucionais de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno.

A reportagem observa que questões relacionadas a Jair Bolsonaro, incluindo eventuais iniciativas de perdão presidencial ou anistia no Congresso, poderiam acabar sendo discutidas no Supremo Tribunal Federal.

O jornal destaca ainda que, dependendo das vagas abertas durante um eventual mandato, Flávio Bolsonaro poderia indicar novos ministros para o STF, sempre sujeitos à aprovação do Senado.

O crescimento da direita no Congresso também poderia alterar a correlação de forças entre Legislativo, Executivo e Judiciário nos próximos anos.