O presidente Donald Trump prometeu US$ 5.000 (R$ 25,5 mil) a cada “adulto norte-americano” se os republicanos mantiverem o controle da Câmara dos Representantes e do Senado nas eleições de novembro nos Estados Unidos. A promessa gerou questionamentos sobre a sua legalidade, seu custo e a origem do dinheiro.
É legal?
A legislação federal proíbe a oferta de dinheiro em troca de votos, e, separadamente, restringe as promessas de benefícios pagos com fundos federais em troca de apoio político.
A oferta de Trump parece contornar essas proibições, pois tem mais a natureza de uma promessa de campanha e se aplicaria a todos os norte-americanos adultos, independentemente de como tiverem votado. De qualquer forma, qualquer pagamento desse tipo exigiria uma autorização do Congresso, já que a Constituição impede o presidente de gastar fundos do Tesouro sem uma verba aprovada por lei.
Trump fez promessas semelhantes no passado, que nunca se concretizaram.
Quanto custaria?
Existem 276,8 milhões de pessoas com mais de 18 anos nos Estados Unidos. Dar US$ 5.000 a cada uma custaria US$ 1,4 trilhão (R$ 7,14 trilhões). Trump disse que se referia a “todos os norte-americanos”. Limitar os pagamentos aos cidadãos norte-americanos reduziria essa cifra a US$ 1,27 trilhão.
Durante a pandemia, o Congresso aprovou pagamentos para contribuintes que atendiam a certos requisitos de renda e seus dependentes, um enfoque mais restrito, que reduziria ainda mais o seu custo.
Os pagamentos aumentariam a inflação?
Muito provavelmente. Isso representa um problema sério para Trump, que enfrenta a insatisfação dos eleitores devido ao aumento do custo de vida.
Os economistas costumam se referir a esse tipo de ajuda direta como “dinheiro de helicóptero”, um termo que descreve pagamentos sem condições feitos por um banco central com o objetivo de tirar uma economia da deflação. Isso é o oposto da pressão de preços que os Estados Unidos enfrentam atualmente.
A inflação ao consumidor no país está em 3,4%, acima da meta de longo prazo do Banco Central, de 2%. Portanto, injetar aproximadamente US$ 1,27 trilhão nas mãos dos consumidores impulsionaria a demanda em uma economia em que os preços já estão subindo, em parte devido ao choque energético causado pela guerra com o Irã.
Uma pesquisa divulgada pelo Federal Reserve Bank de St. Louis apontou que os estímulos fiscais durante a pandemia, que incluíam um apoio às empresas, acrescentaram 2,6 pontos percentuais à inflação nos Estados Unidos.
As tarifas poderiam financiar essa promessa?
Não em um futuro próximo. O governo arrecadou um recorde de US$ 195 bilhões (R$ 996 bilhões) em tarifas aduaneiras no ano fiscal de 2025, o que significa que um desembolso de US$ 1,4 trilhão consumiria aproximadamente sete anos de receita procedente das políticas comerciais de Trump.
Além disso, a Suprema Corte anulou em fevereiro as tarifas emblemáticas de Trump, o que obrigou o Departamento do Tesouro a reembolsar os importadores com juros, e a receita aduaneira líquida foi negativa de maio a julho.
‘Corrupto’ e ‘imprudente’
A reação democrata à proposta de Trump foi implacável. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, possível candidato à Presidência em 2028, condenou a promessa “do homem mais corrupto que já ocupou o Salão Oval”.
“Depois de deixar vocês doentes e mais pobres com sua guerra, Donald Trump quer agora comprar seu voto com US$ 5.000 manchados de sangue financiado pelos contribuintes”, publicou Newsom no X.
O deputado democrata Jamie Raskin, de Maryland, descreveu a promessa de Trump como a manobra mais recente de uma “presidência incrivelmente imprudente e disfuncional”. “Depois de somar trilhões de dólares à dívida nacional, Trump agora oferece a todos um suborno político de US$ 5.000 se elegermos republicanos para dirigir o Congresso.”
