Pesquisa Genial/Quaest divulgada na segunda semana de maio de 2026 mostrou que um terço do eleitorado brasileiro — 32% — se identifica como independente, não se alinhando nem ao lulismo nem ao bolsonarismo. No entanto, esse potencial de votos não tem se convertido em apoio a candidaturas alternativas.
Originalmente, a expressão “terceira via” não nasceu no Brasil. Ela surgiu na Europa como uma tentativa de renovar a política, buscando um equilíbrio entre o socialismo e o liberalismo. Formulada pelo sociólogo inglês Anthony Giddens, a ideia era fugir da escolha entre “apenas o mercado” ou “apenas o Estado”.
Essa visão ganhou o mundo nos anos 90 com líderes como Tony Blair (Reino Unido), Bill Clinton (EUA) e o próprio Fernando Henrique Cardoso no Brasil. Na prática, a proposta era dar respostas que a divisão tradicional entre esquerda e direita já não conseguia oferecer.
Com o tempo, o conceito perdeu força internacionalmente, e, no Brasil atual, a expressão é utilizada de forma mais simples: para definir qualquer candidato que tente quebrar a disputa entre os dois favoritos.
Nesta quarta-feira (10), a Genial/Quaest divulgou uma nova pesquisa que apresenta o primeiro turno da seguinte forma:
- Lula (PT): 39%
- Flávio Bolsonaro (PL): 29%
- Ronaldo Caiado (PSD): 3%
- Romeu Zema (Novo): 2%
Os ex-governadores de GO e MG, respectivamente, se colocam como possibilidades de terceira via, apesar de disputarem o mesmo eleitorado de Flávio . Entretanto, as pesquisas apontam a enorme distância que eles estão dos dois principais pré-candidatos.
Candidaturas de centro
Wilson Gomes, professor de comunicação da Ufba (Universidade Federal da Bahia) e doutor em filosofia, pondera que o percentual de 32% de independentes tende a ser enganoso no papel. “Apenas pouco mais de um terço desse grupo tende efetivamente a votar em um dos candidatos. Isso significa que os 32% de independentes podem se converter em algo entre 10% e 15% na hora do ‘vamos ver eleitoral'”, pontua.
Outra figura que buscou se consolidar como essa alternativa foi o ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite. No PSD, ele figurava como um dos presidenciáveis ao lado de Caiado e de Ratinho Júnior. Embora o governador do Paraná fosse o favorito da sigla, ele retirou seu nome da disputa interna para focar na sucessão estadual. Sem o aval final do presidente do partido, Gilberto Kassab, Leite acabou perdendo espaço na legenda e decidiu permanecer no cargo executivo gaúcho até o fim do ano.
Essa dificuldade dos nomes alternativos não é novo: em 2018 e 2022, candidaturas como as de Ciro Gomes (na época no PDT, hoje filiado ao PSDB) e Simone Tebet (que trocou o MDB pelo PSB) terminaram o pleito sem ameaçar os líderes da disputa.
Para especialistas ouvidos pela Jovem Pan, o travamento dessas alternativas ocorre porque a escolha do eleitor é guiada mais pela rejeição ao adversário do que pela adesão a um projeto novo.
“Caiado é muito próximo ao bolsonarismo. Ele não representaria uma terceira via. O Zema também é próximo [do bolsonarismo], mas as últimas movimentações dele até colocariam ele numa ideia de uma movimentação para uma terceira via”, afirma Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Eleições no Brasil
Historicamente, desde a retomada democrática em 1989, o Brasil lida com essa dificuldade. Naquela eleição, apesar de nomes históricos como Ulysses Guimarães, Paulo Maluf e Mario Covas estarem no páreo, a decisão afunilou entre Fernando Collor e a disputa entre Lula e Leonel Brizola por uma vaga no segundo turno. Na ocasião, o petista avançou por uma margem mínima, sendo depois derrotado por Collor (53% a 46%).
Na época, Brizola representava o trabalhismo tradicional e era visto por muitos como uma “terceira via” de experiência. No entanto, suas ideias eram muito semelhantes às de Lula e não representavam, de fato, uma “terceira linha de pensamento”: os dois defendiam um “projeto popular” contra o que chamavam de “projeto das elites”.
Os projetos de Brizola e Lula, na prática, convergiam em pontos centrais, como por exemplo, de soberania nacional e justiça social. Os dois defendiam um Estado forte, que mantivesse o controle sobre setores estratégicos como energia e telecomunicações, rejeitando as privatizações.
Um artigo sobre a trajetória de Brizola, divulgado em 2018, aponta que o pedetista chegou a sugerir que a esquerda lançasse um candidato único em 1989 — Mário Covas — para evitar divisões, mas a ideia não prosperou.
Mesmo com o atrito, o pragmatismo falou mais alto no segundo turno. Para Brizola, era preciso derrotar o projeto neoliberal de Collor. Foi nesse momento que ele fechou o apoio ao PT com uma frase que entrou para a história: “Teremos que engolir este sapo barbudo”.

“Existe um terço do eleitorado que não se identifica com o bolsonarismo nem com o lulipetismo, mas a terceira via não consegue vender um projeto suficiente para pegar esse voto”, explica Rodrigo Prando.
Nos anos seguintes, o país consolidou um modelo de dois protagonistas centrais. As tentativas mais bem-sucedidas de quebrar esse ciclo vieram de:
- Marina Silva (2014): alcançou 21,3% dos votos;
- Anthony Garotinho (2002): obteve 17,8%;
Marina, inclusive, chegou a figurar como favorita para ir ao segundo turno após a morte de Eduardo Campos, mas foi superada na reta final pelo tradicional embate entre PT e PSDB — um duelo que se repetiu por seis eleições consecutivas, de 1994 a 2010.
O peso da rejeição popular
A pesquisa Genial/Quaest desta quarta-feira mostra que a disputa atual é alimentada pelo receio: 44% dos entrevistados dizem ter mais medo que a família Bolsonaro volte ao poder, enquanto 40% temem a continuidade do governo Lula.
Wilson Gomes observa que esse grupo de independentes é heterogêneo. “Declarar-se independente não significa estar disponível para votar em qualquer candidato que simplesmente não seja Lula nem represente a extrema direita”, afirma Gomes.
Para o professor, é irreal imaginar que esses votos se unificariam automaticamente. “Esse eleitor pode preferir não votar, pode ter perdido a fé na política, pode rejeitar o cardápio eleitoral disponível ou pode achar que o seu ideal de candidato simplesmente não está na disputa”, analisa.
‘Calcificação política’
A polarização também é sustentada pela “calcificação política”, termo que define um debate mais emocional do que racional. Esse cenário ganhou novos contornos em 2018, quando a vitória de Jair Bolsonaro encerrou a hegemonia tucana, colocando o bolsonarismo como a força principal de oposição ao PT. “Uma parte substantiva do eleitor acaba votando em Lula ou Bolsonaro não pela identificação, mas porque tem medo do outro lado”, analisa Prando.
Wilson Gomes reforça que a decisão tem sido mais orientada pelo veto do que pela adesão. “O eleitor vota menos porque prefere determinada política pública e mais porque quer impedir que ‘os bandidos do outro lado’ vençam”, explica. Segundo ele, houve um esvaziamento do centro: “Nos últimos 15 anos, militantes e eleitores abandonaram posições intermediárias, moderadas e centristas, e se concentraram de um lado ou de outro”.
Atualmente, candidatos que buscam esse espaço, como Romeu Zema (Novo-MG), enfrentam o desafio de se descolar de suas bases originais. Rodrigo Prando avalia que ele e Caiado ainda são vistos como muito próximos ao bolsonarismo.
Recentemente, as diferentes reações de ambos ao caso envolvendo Flávio Bolsonaro — que solicitou dinheiro ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para produzir um documentário sobre seu pai — expuseram nuances. Zema adotou um tom duro, classificando o episódio como um desrespeito “imperdoável”. Já Caiado, embora tenha cobrado esclarecimentos, priorizou o pragmatismo, defendendo que a unidade da direita contra o PT deve estar acima de polêmicas internas.
A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira indica que Lula lidera a corrida presidencial tanto no primeiro, quanto no segundo turno contra Flávio Bolsonaro. No embate direto, o atual presidente tem 44% das intenções de voto contra 38% do senador.
Para Wilson Gomes, a terceira via só prosperaria se um dos campos hegemônicos entrasse em colapso. “Para um candidato ‘nem-nem’ se tornar o principal concorrente, precisaria que o campo oposto passasse a apoiá-lo”, conclui o professor, ressaltando que isso só ocorreria “se a candidatura natural desse campo se tornasse uma cruz impossível de carregar”.

