A derrota para Lula (PT) nas eleições presidenciais de 2026 deixará Flávio Bolsonaro (PL) sem mandato eletivo a partir de fevereiro de 2027. Com o fim de seu período como senador pelo Rio de Janeiro, o parlamentar também perderá o foro privilegiado, encerrando uma trajetória de 24 anos em cargos públicos.

Flávio entrou na política em 2002, quando foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro. Aos 21 anos, iniciou uma sequência de quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa fluminense, antes de chegar ao Senado, em 2018, pelo então PSL. A tentativa de disputar a Prefeitura do Rio, em 2016, terminou em derrota. Dez anos depois, o senador voltou a ser derrotado nas urnas, desta vez na corrida pelo Palácio do Planalto.

A possibilidade de ficar sem mandato foi mencionada por Lula durante o debate presidencial da Band/Jovem Pan, no último dia 18.

“Você se prepare, porque no dia 25, você vai perder imunidade e você vai ter problema, porque a sua vida tem muito inquérito que agora vai andar. Se os seus amigos não estão deixando andar, agora vai andar”Lula no debate da Band/Jovem Pan

A vitória de Lula foi confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante a apuração desse domingo (25). Com 100% das urnas contabilizadas, o petista recebeu 64,3 milhões de votos, o equivalente a 51,79% dos válidos. Flávio terminou com 59,8 milhões, ou 48,21%.

O mandato de Flávio no Senado termina em fevereiro de 2027, quando os parlamentares eleitos tomam posse. Até lá, ele continuará exercendo as funções legislativas. Depois, sem outro cargo público, deixará de contar, em regra, com a prerrogativa de ser julgado por tribunais superiores em razão do mandato.

A mudança, porém, não significa que todos os processos e investigações envolvendo o senador serão transferidos automaticamente para a primeira instância. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que a competência da Corte pode ser mantida em casos de crimes supostamente cometidos durante o exercício do cargo e em razão das funções, mesmo após o fim do mandato.

O foro por prerrogativa de função, conhecido como foro privilegiado, estabelece que determinadas autoridades sejam julgadas por tribunais específicos, em vez de responderem diretamente à Justiça de primeira instância. A regra busca proteger o exercício de funções públicas contra possíveis perseguições judiciais.

Flávio é alvo de duas investigações mencionadas no STF. Uma delas envolve o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Segundo informações divulgadas pelo portal The Intercept, o senador teria negociado com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, um investimento de R$ 130 milhões para a produção.

Em mensagens de áudio divulgadas na ocasião, Flávio se dirigiu a Vorcaro para falar sobre a dificuldade de cobrar o valor acertado. O caso levantou suspeitas sobre a origem e a destinação dos recursos destinados ao longa-metragem.

A outra investigação envolve o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro. Informações encontradas pela Polícia Federal (PF) em trocas de e-mails indicaram que Flávio estava registrado como usuário master de uma conta bancária vinculada ao advogado.

Para os investigadores, o cadastro poderia permitir ao senador acesso operacional relevante à conta e levantar a hipótese de participação econômica ou societária na empresa relacionada. Flávio e Tomaz são amigos, mas negam manter negócios em conjunto.

Atuação no Senado

Flávio ainda terá cerca de três meses de mandato antes de deixar o Congresso. Durante sua passagem pelo Senado, a segurança pública foi uma das principais bandeiras políticas do parlamentar, que chegou a presidir a comissão da Casa dedicada ao tema.

Apesar disso, sua produção legislativa foi discreta: dois projetos de sua autoria foram transformados em lei, nenhum deles relacionado diretamente à segurança pública.

No mesmo período, o patrimônio declarado por Flávio passou de R$ 1,7 milhão para R$ 8,1 milhões.