A Procuradoria-Geral da República (PGR) abriu uma apuração para verificar se houve interferência externa na produção do relatório da Polícia Federal que reuniu informações sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

A informação foi enviada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao presidente do STF, Edson Fachin, em resposta ao pedido de esclarecimentos sobre a produção do material.

O relatório foi produzido pela Polícia Federal a pedido do ministro André Mendonça, então relator do caso, e reuniu mensagens, encontros e outros elementos envolvendo Moraes e Vorcaro.

A decisão de Mendonça, de 24 de agosto, determinou que a PF apresentasse em 72 horas informações sobre a identificação de integrantes de uma suposta “rede de influência e monitoramento gerenciada por Daniel Bueno Vorcaro”, incluindo eventuais autoridades com foro no Supremo.

Na manifestação enviada a Fachin, Gonet afirmou que a Procuradoria-Geral da República não foi comunicada sobre a determinação de Mendonça que levou à produção do relatório.

“No trâmite analisado, não foi dado espaço à manifestação da Procuradoria-Geral da República. Ao revés, a decisão proferida nos autos da Petição n. 15.556/DF foi ocultada do Ministério Público”, afirmou.

Segundo Gonet, a falta de comunicação impediu a PGR de exercer o “necessário controle externo da atividade policial, etapa essencial a qualquer investigação”.

PGR quer saber se houve interferência externa

Diante dos questionamentos, Gonet determinou a abertura de um Procedimento de Controle Externo da Atividade Policial para apurar as circunstâncias da produção do documento.

A Polícia Federal deverá explicar como o relatório foi elaborado e se houve participação externa capaz de influenciar seu conteúdo.

“Notifique-se a autoridade policial para esclarecer as circunstâncias em torno da confecção da IPJ-A n. 3298613/2026, notadamente quanto a possível ocorrência de ordem ou interferência externa em sua elaboração, que tenha maculado seu conteúdo”, escreveu Gonet.

A apuração foi aberta depois de Fachin pedir esclarecimentos sobre a condução do caso e, especificamente, sobre as medidas adotadas pela PGR para fiscalizar a atuação da Polícia Federal.

Depois da resposta da PF, o procedimento voltará ao procurador-geral para nova análise.

Entenda o pedido de Moraes

Ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF)

Ao enviar o material a Edson Fachin, Alexandre de Moraes afirmou que os relatórios reunidos pela Polícia Federal (PF) apontam “fortes indícios” de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na atuação de André Mendonça nas operações Sem Desconto e Compliance Zero.

A principal acusação é de que Mendonça teria ultrapassado os limites da supervisão judicial e avançado sobre atribuições próprias da PF. Um dos relatórios afirma que o ministro recebeu dados brutos das investigações antes da triagem e da análise dos próprios policiais, situação que, segundo o documento, poderia transformar o magistrado em investigador.

Os documentos também apontam que Mendonça teria defendido que análises produzidas por servidores da PF fossem encaminhadas sem revisão dos delegados responsáveis e teria interferido na composição de equipes, no fluxo interno de informações e no tratamento de provas.

Outro eixo envolve as colaborações premiadas. Os relatórios sustentam que o ministro participou de discussões sobre possíveis delações, manteve contatos com advogados de colaboradores e chegou a cogitar benefícios não previstos em lei em uma eventual colaboração de Maurício Camisotti.

Empresário, Maurício Camisotti foi apontado por parlamentares da CPMI do INSS como um dos envolvidos no esquema de descontos ilegais sobre aposentadorias e pensões. Segundo a comissão, empresas ligadas à família Camisotti receberam cerca de R$ 350 milhões de três entidades investigadas no caso.

O filho de Maurício, Paulo Camisotti, também é citado como parte da estrutura empresarial da família e compareceu à CPMI como testemunha.

Moraes também citou suposto direcionamento de investigações por motivos pessoais e políticos. Segundo os documentos, Mendonça teria demonstrado interesse em avançar sobre o próprio Moraes e sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, além de adotar critérios diferentes para pessoas de espectros políticos distintos.

Os relatórios registram ainda que Mendonça teria questionado a confiança no diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e no procurador-geral da República, Paulo Gonet. Segundo o material, o ministro teria cogitado afastar Andrei e transformar Gonet em testemunha em procedimentos derivados das investigações.