O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, criticou nesta segunda-feira (2) a maneira como Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. Em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan News, Kassab classificou como “muito ruim” a postura do senador, criticou os questionamentos ao resultado eleitoral e chamou de “desastrosa” a carta publicada pelo candidato derrotado depois de chegar aos Estados Unidos.
“Eu acho que a maneira como ele deixa o país foi muito ruim. Um candidato que tem 60 milhões de votos, que o primeiro passo é questionar o resultado”, afirmou.
Kassab avaliou que Flávio poderia ter reconhecido o resultado das urnas, mesmo sem cumprimentar Lula, e recorrido à Justiça Eleitoral para contestar eventuais irregularidades durante a campanha. Segundo o dirigente, essa postura permitiria ao senador manter os questionamentos dentro dos caminhos institucionais.
“Poderia, sabe, não quis cumprimentar o presidente, acho uma indelicadeza, mas tudo bem. […] Mas dizer que acatava e, como cidadão, como candidato, como eleitor, ele ia recorrer para denunciar essas questões, era muito mais fácil”, declarou.
O presidente do PSD afirmou que Flávio adotou uma postura equivocada no primeiro momento após a derrota e posteriormente recuou. Kassab também criticou a divulgação de uma carta na qual o senador voltou a questionar a legitimidade da eleição presidencial.
“Ele preferiu fazer de maneira diferente para depois recuar porque viu que tinha errado, mas mostrou seu instinto, não é? E no dia seguinte, além de viajar daquela maneira, chegando lá, faz aquela carta desastrosa”, afirmou.
“Eu estou entre aqueles que realmente lamenta essa sua postura no pós-eleição”, acrescentou.
A Jovem Pan revelou em 27 de outubro que Flávio deixou o Brasil com destino aos Estados Unidos. A saída ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega dos passaportes do parlamentar e proibi-lo de viajar ao exterior.
No dia seguinte, já nos Estados Unidos, Flávio divulgou uma carta na qual se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” e classificou o resultado das urnas como fraudulento, sem apresentar provas. Posteriormente, o senador publicou uma nova versão do documento, substituindo a expressão por “líder do Brasil”.
Durante o Direto ao Ponto, Kassab citou como exemplo a disputa pelo governo do Rio de Janeiro. O PSD e aliados de Eduardo Paes questionam judicialmente a anulação dos votos de Anthony Garotinho (Republicanos), decisão que garantiu a eleição de Douglas Ruas (PL) ainda no primeiro turno.
Segundo Kassab, a contestação judicial não impede que o PSD reconheça a condição de governador eleito de Ruas e colabore para a transição de governo.
“Em nenhum momento estamos pregando nada que não seja dentro da lei”, afirmou.
Kassab vê bolsonarismo desgastado, mas não eliminado
Ao comentar o futuro da direita brasileira, Kassab afirmou que o bolsonarismo saiu enfraquecido das eleições, mas continua sendo uma força política relevante.
O presidente do PSD citou a audiência de uma transmissão ao vivo de Flávio Bolsonaro após sua chegada aos Estados Unidos como exemplo da capacidade de mobilização do movimento.
“Eu entendo que o Bolsonaro não tá morto. […] Isso é muito significativo, mas tá desgastado. Tá desgastado”, afirmou.
Kassab também demonstrou dúvidas sobre a possibilidade de um integrante da família Bolsonaro disputar novamente a Presidência da República em 2030.
“Eu não sei se teremos um Bolsonaro em eleições majoritárias daqui a quatro anos. Na minha visão de hoje, seria um grande erro. Já foi um grande erro”, declarou.
O dirigente retomou uma avaliação que havia feito durante a campanha eleitoral: a de que Flávio Bolsonaro teria dificuldades para derrotar Lula por não conseguir conquistar uma parcela suficiente do eleitorado de centro.
Segundo Kassab, o presidente reeleito representa uma esquerda consolidada, enquanto a direita teria melhores condições de vencer a disputa se tivesse escolhido um candidato com maior capacidade de atrair eleitores moderados.
“Se você tem um candidato da esquerda, e o Lula é um candidato da esquerda, uma esquerda enraizada, era muito melhor se tivéssemos contra ele um candidato que entrasse mais no centro”, afirmou.
Kassab acrescentou que a escolha de Flávio obrigou a direita a disputar com Lula votos de um eleitorado que, em sua avaliação, estava insatisfeito com o terceiro mandato do petista.
“Na hora que sai o Flávio, ele disputou o centro com o Lula. Se a gente tivesse um candidato mais ao centro, não haveria disputa. O candidato levaria o centro, porque o centro tava decepcionado com o Lula”, declarou.
Kassab considera precipitado discutir candidatura de Tarcísio em 2030
Questionado sobre a possibilidade de o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disputar a Presidência da República em 2030, Kassab afirmou considerar prematuro iniciar as articulações para a próxima eleição.
O dirigente, que foi secretário de Governo e Relações Institucionais de Tarcísio, defendeu que os agentes políticos se concentrem nas responsabilidades de seus cargos antes de discutir novos projetos eleitorais.
“Realmente eu acho muito precipitado falar em eleições agora, até porque o eleitor vai perder o respeito. Cada um tem a sua missão”, afirmou.
Durante a campanha de 2026, Kassab já havia defendido que a escolha de Flávio Bolsonaro como candidato da direita foi um erro estratégico. Em entrevista ao próprio Direto ao Ponto, em abril, o dirigente avaliou que Tarcísio reunia melhores condições para unificar diferentes setores da direita e disputar o eleitorado de centro.
Lula venceu Flávio no segundo turno, realizado em 25 de outubro, com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos. O candidato do PL recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%.
Apesar das críticas à candidatura e à postura de Flávio após a derrota, Kassab reafirmou durante a entrevista que o PSD respeita o PL, partido que classificou como conservador.
A legenda de Flávio terá a maior bancada individual da Câmara dos Deputados em 2027, com 121 parlamentares, além da maior representação no Senado, com 28 cadeiras.
