Mensagens e documentos extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mostram contatos do banqueiro com os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O relatório da Polícia Federal (PF) reúne registros de encontros entre Vorcaro e Moraes, mensagens enviadas pelo banqueiro a um contato associado ao ministro e documentos sobre contratos firmados com o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado.
Mensagens divulgadas nesta quarta-feira (2) mostram ainda que Vorcaro procurou Mendonça e se reuniu com o ministro em março de 2025, em São Paulo. Mendonça confirmou o encontro e afirmou que recebeu o empresário para tratar de um processo de interesse do Master que tramitava no Supremo. O ministro é atualmente o relator do procedimento no qual a PF apresentou os elementos relacionados a Moraes.
Moraes no caso
Os registros encontrados pela PF mostram encontros entre Vorcaro e Moraes desde pelo menos dezembro de 2023. Naquele mês, o ex-ministro Fábio Faria compartilhou com Vorcaro o contato de Moraes. No dia seguinte, mensagens trataram de um almoço de “Alex” em Campos do Jordão. Vorcaro enviou a localização do hotel onde o encontro ocorreria e orientou funcionários sobre a recepção.
Outros encontros aparecem no material. Em 19 de março de 2025, Vorcaro escreveu a uma pessoa próxima que estava “com o Ministro”. Pouco depois, informou a outro interlocutor que estava “com Moraes aqui”. Na madrugada seguinte, relatou que outras pessoas haviam chegado para “falarem com Alexandre”.
Em 19 de abril, Vorcaro disse que estava “indo encontrar alexandre moraes aqui perto de casa”. Dez dias depois, afirmou novamente que estava com “Alexandre”.
A PF também analisou mensagens enviadas por Vorcaro ao contato associado a Moraes em outubro e novembro de 2025. Segundo o relatório, os textos eram escritos no aplicativo de notas do celular, capturados em imagens e enviados pelo WhatsApp. O destinatário estava salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Em uma mensagem de 30 de outubro, Vorcaro tratou da necessidade de interlocução com autoridades diante do avanço das investigações. Outros registros trazem perguntas sobre possíveis medidas judiciais e sobre a possibilidade de adiamento de ações contra ele.
Em uma das mensagens, Vorcaro perguntou: “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”. Em seguida, questionou: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”. Em 15 de novembro, dois dias antes de sua prisão, perguntou: “Acha que segunda tenho que estar fora?”
Contrato de R$ 108 mi
O relatório detalha também a relação do Banco Master com o escritório Barci de Moraes. Em 11 de janeiro de 2024, Viviane enviou a Vorcaro uma minuta de prestação de serviços. “Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise”, dizia a mensagem.
A PF identificou que a última alteração no documento havia sido feita pelo usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, às 16h30 daquele dia. Uma nova versão do documento foi posteriormente enviada a Vorcaro. Segundo o relatório, o usuário “Ministro Alexandre de Moraes” aparecia novamente como responsável pela última modificação.
As negociações também aparecem em mensagens entre Fábio Faria e Vorcaro. Em 15 de janeiro de 2024, Faria perguntou: “Respondeu a Vivi”. Vorcaro respondeu: “fechou 3 anos”. Faria disse que havia tratado de quatro anos, mas que “pode fazer 3”.
O contrato foi assinado em 23 de janeiro de 2024 e previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões, totalizando R$ 108 milhões. O escritório Barci de Moraes afirmou que Alexandre de Moraes analisou o contrato a pedido do setor de compliance para verificar a existência de eventual impedimento legal.
Segundo o escritório, não havia previsão de atuação perante o STF em processos relacionados ao Banco Master. A manifestação afirma ainda que Moraes nunca julgou causa envolvendo o banco.
Segundo contrato
A investigação encontrou um segundo contrato, datado de 12 de maio de 2025, entre o escritório Barci de Moraes e a Viking Participações.
Nas tratativas, o advogado de Vorcaro apresentou duas alternativas para a transferência de ativos. A primeira previa a entrega dos bens e a transferência das quotas, com possibilidade de recompra por R$ 1 caso o contrato de honorários não fosse cumprido. A segunda condicionava a transferência das quotas ao cumprimento do contrato. Vorcaro respondeu: “Opção 1 não é o negócio”. Depois, afirmou: “Os ativos são deles… já”.
Entre os ativos estavam cotas relacionadas a um avião Legacy 650 e a um helicóptero EC 155 B1. Segundo os documentos analisados pela PF, a cota do avião custava US$ 5.512.951,89, enquanto a do helicóptero tinha valor de US$ 1.335.014,01.
Em julho de 2025, aparecem registros de pagamentos relacionados ao escritório. Em 14 de julho, foi registrado um pagamento de R$ 3.422.268,14. Em 24 de julho, uma funcionária informou a Vorcaro que havia uma cobrança de R$ 22.815.120,95, referente a uma fatura do escritório em nome da Viking.
Vorcaro e Mendonça
Mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro mostram que o banqueiro se reuniu com André Mendonça em 14 de março de 2025, em São Paulo. O encontro durou cerca de duas horas e, segundo o material, ocorreu no endereço de um instituto fundado pelo ministro.
A aproximação foi articulada ao longo de semanas pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Em um áudio enviado a Vorcaro em 8 de fevereiro de 2025, Ciro afirmou que estava trabalhando em favor do banqueiro e relatou ter levado Mendonça a uma alfaiataria. O advogado também enviou uma fotografia ao lado do ministro.
As mensagens indicam que Ciro e Cezinha haviam conversado com Mendonça sobre questões relacionadas aos problemas enfrentados pelo Banco Master no Banco Central. Em outro áudio, Ciro afirmou ter conversado com o ministro sobre a situação do banco e disse que Mendonça queria receber Vorcaro. “O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo”, afirmou.
O que diz Mendonça
Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do empresário. Segundo o ministro, a conversa se limitou a ouvir o banqueiro. Mendonça afirmou também que recebeu, no mesmo mês, o advogado de Vorcaro e que mantém em seus registros os memoriais escritos entregues durante os encontros.
De acordo com Mendonça, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava em julgamento no STF e discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master.
O ministro afirmou que, na data da reunião, o processo estava com pedido de vista de outro integrante da Corte. Mendonça disse ainda que Vorcaro procurou outros ministros do STF para tratar do mesmo processo.
“Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro”, afirmou.
O ministro declarou ainda que sua atuação no processo foi contrária à posição defendida pelo empresário e que seguiu entendimento que já adotava em casos semelhantes.
Mendonça no caso
Mendonça é o relator, no Supremo, do procedimento no qual a PF apresentou os novos elementos obtidos durante a investigação do Banco Master. A PF recebeu determinação para identificar integrantes de uma suposta “rede de influência e monitoramento” ligada a Vorcaro. O relatório produzido pela polícia tem 218 páginas, das quais quase 190 tratam de elementos relacionados a Alexandre de Moraes.
A forma como essa apuração avançou sobre Moraes é alvo de questionamento jurídico. Um dos pontos é se um magistrado pode determinar, durante a fase pré-processual, diligências contra pessoas específicas sem iniciativa da autoridade policial ou provocação do Ministério Público.
Há ainda uma questão específica sobre Moraes. Por se tratar de um ministro do Supremo, discute-se se os elementos encontrados pela PF deveriam ter sido encaminhados à Presidência do STF para que o plenário decidisse sobre a abertura de uma investigação. Também é questionada a validade dos elementos produzidos a partir das diligências. A tese é que, caso a ordem inicial seja considerada irregular, as provas obtidas a partir dela também podem ser declaradas nulas.
Moraes investigado?
O relatório da PF reúne elementos relacionados a Moraes, mas sua existência não significa, por si só, que o ministro tenha cometido algum crime.
O documento apresenta mensagens de Vorcaro, registros de encontros e informações sobre os contratos firmados com o escritório Barci de Moraes. Antes de uma eventual investigação específica contra Moraes, o STF terá de decidir sobre a competência para autorizar a apuração e sobre os questionamentos relacionados à validade das diligências realizadas pela PF.
Na terça-feira (1º), Mendonça retirou o sigilo dos documentos da investigação e afirmou que os novos elementos apresentados pela Polícia Federal deverão ser analisados pelo plenário do STF.
“Diante do teor das informações apresentadas pela autoridade policial, independentemente de qual venha a ser a manifestação exarada pela douta Procuradoria-Geral da República, o caminho inevitável dos presentes autos leva ao Plenário deste Supremo Tribunal Federal, instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial”, afirmou.
Mendonça também determinou que a deliberação seja realizada em sessão presencial, de forma “pública e transparente”, em data a ser definida pelo presidente do Supremo, Edson Fachin. O plenário deverá decidir sobre os elementos apresentados pela PF e sobre os questionamentos jurídicos relacionados à investigação.
