Lula é o grande chefe. É ele quem dá as cartas na esquerda. E não é de hoje. Desde que iniciou sua trajetória política, assumiu uma posição de liderança que preservou em todos os instantes. Mesmo na época em que José Dirceu, apontado como a eminência parda do PT, se preparava para alcançar o papel de maior destaque no cenário nacional, o atual presidente deu um jeito de continuar no comando.

Por causa das acusações feitas pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson, Dirceu foi obrigado a deixar o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, que servia de trampolim perfeito para suceder a Lula na presidência, e teve de interromper, assim, a sua até então “imparável” ascensão.

Bateu em retirada

Depois dessa saída estratégica, para acalmar os ânimos do forte antagonismo da população contra o escândalo do mensalão, recolheu-se a uma espécie de ostracismo. Foi preso e teve seus direitos políticos cassados, tornando-se inelegível. Portanto, um dos poucos nomes que poderiam fazer sombra a Lula ficara fora de combate.

Tudo isso para dizer que o chefe do Executivo reina sozinho. Não conseguiu, nem pretendeu conseguir ao longo das últimas décadas preparar um sucessor. A figura mais próxima é o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, que deve perder as eleições ao governo de São Paulo já no primeiro turno. Sem novidade. Já está acostumado a entrar nessas disputas sabendo que vai perder.

Foi só coincidência?

Lula, portanto, não reza pela cartilha de ninguém, só a sua própria. Ainda assim, parece querer fazer eco às palavras de uma antiga discípula, Dilma Rousseff. Quando a ex-presidente estava em uma de suas campanhas, em março de 2013, ao proferir discurso em João Pessoa (PB), cunhou uma pérola que ficaria para a história:

“Nós podemos disputar eleição, nós podemos brigar na eleição, nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição. Agora, quando a gente está no exercício do mandato, nós temos que nos respeitar, porque fomos eleitos pelo voto direto do povo brasileiro.”

Interpretando as palavras de Dilma

São inúmeras as interpretações possíveis a partir de suas palavras. A primeira e mais evidente é que em campanha política o candidato pode dizer e fazer o que bem entender, mesmo que não tenha nenhuma intenção de cumprir suas promessas depois de eleito. Que o diga Lula com as memoráveis histórias das picanhas, da queda nas taxas de juros e do fim do sigilo de 100 anos.

A outra é que mesmo sem dinheiro e elevando o endividamento do país a níveis insuportáveis, valem as ações populistas. Ou seja, gastam o que têm e o que não têm para agradar os eleitores às vésperas das eleições. Depois de vencerem dão um jeito. E se não derem, basta colocar a culpa em um ex-presidente, não importando que ele tenha deixado a presidência há quatro ou oito anos. Em certos casos, até mais.

Medidas populistas

Os pacotes de bondade de Lula a menos de um mês do pleito parecem seguir a cartilha eleitoral da velha companheira: vale fazer o diabo para vencer as eleições. O aumento no Bolsa Família e as canetinhas de emagrecimento são apenas alguns itens desse pacote. Se falta verba para a educação ou saúde agora não importa muito, desde que seja eleito.

Dá a impressão de serem medidas de desespero. Quando a eliminação das taxas das blusinhas, a não cobrança de imposto de renda para quem ganha até 5 mil e a PEC para acabar com a escala de 6×1 não influenciaram muito nas pesquisas de intenção de votos, o governo sacou da manga o que restava para tentar reverter uma tendência de favorecimento do adversário, Flávio Bolsonaro.

Quase nos acréscimos

Está em cima da hora. São poucas as chances de Flávio liquidar a fatura no primeiro turno. Tudo deve ficar para o segundo turno. Como dizem os especialistas, é uma outra campanha, só com dois candidatos. Talvez esteja contando com o diabo para levar vantagem nessa segunda etapa. Em política tudo é possível.

Se, por um lado, Lula teria esse benefício das medidas populistas, por outro, não poderá contar muito com os votos dos eleitores que votaram nos outros candidatos no primeiro turno. Mesmo que Caiado e Renan Santos não declarem apoio a Flávio nessa sequência, os eleitores com sentimento antipetista tendem a votar nele de qualquer forma, independentemente da orientação desses candidatos.

Menosprezaram o adversário

Tudo indica que o governo não levou muito a sério a força do oponente. Ao contrário, deram a entender que ele seria o rival mais frágil e mais fácil de ser vencido. Quando as pesquisas mostraram o oposto é que se deram conta de que o nome de Jair Bolsonaro, preso e fora da disputa, ainda conta muito nas urnas.

Descobriram que o diabo deveria ter sido pintado com cores mais berrantes e buscado seu apoio com mais antecedência. Se essas medidas serão ou não suficientes, as apurações darão em breve a resposta a essa questão. Siga pelo Instagram: @polito