A Polícia Civil do Rio de Janeiro realiza, na manhã desta quarta-feira (5), uma nova fase da Operação Contenção que busca prender 98 integrantes do Comando Vermelho. As ações ocorrem, principalmente, contra os controladores do Complexo do Fallet-Fogueteiro, no Centro do Rio. A ação terminou com 10 pessoas presas.
As investigações apontam que a organização criminosa funciona na região sob comando de Paulo César Baptista de Castro, conhecido como “Paulinho do Fogueteiro”. O homem é um dos muitos liderados por Edgard Alves de Andrade, o “Doca” ou “Urso”, principal chefe da facção nas ruas.
De acordo com as investigações da Polícia Civil, “Paulinho” exerce autoridade absoluta no complexo, ao atuar como “juiz” em conflitos internos e ditar as regras sociais da comunidade. Além disso, ele é responsável por controlar núcleos dentro do crime organizado. Eles são:
- “Financeiro”: realiza transações com o objetivo de compra e venda de material entorpecente e armas para o Comando Vermelho;
- “Gerente da boca de fumo”: cargo hierárquico de destaque dentro da organização, onde assume responsabilidades diretas no gerenciamento de bocas de fumo no interior da comunidade, organizando e fiscalizando a venda do material entorpecente, reposição de cargas de entorpecentes, fiscalizando os vapores” e “atividades” afim destes seguirem as regras ditadas pelo frente;
- “Soldado”: Braço operacional da facção, com responsabilidades que incluem a segurança das “bocas de fumo”, a contenção de operações policiais para garantir a fuga de lideranças e outros associados, além participar ativamente da defesa de territórios e de invasões de comunidades controladas por facções rivais.
Além disso, a investigação aponta que “Paulinho” é um dos maiores contribuidores da “caixinha” do Comando Vermelho. Para manter o fluxo financeiro, especialmente após a instalação de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) na região, ele diversificou as atividades criminosas, sendo apontado como o mandante de pelo menos quatro roubos a joalherias na capital.
O homem ainda é conhecido por recrutar adolescentes para o tráfico e utilizar o “narcoassistencialismo” como ferramenta de coerção. Apesar de possuir múltiplos mandados de prisão em aberto, ele nunca foi preso.
Já Doca ocupa o principal lugar de destaque na facção e é quem dá ordens aos “donos” das comunidades. Ele também é apontado como o principal financiador das guerras territoriais travadas pelo Comando Vermelho contra facções rivais.
Liderança e a estratégia do roubo de veículos
Sob a liderança de “Paulinho do Fogueteiro”, a facção passou a explorar, de forma estruturada, o roubo de veículos como importante fonte de financiamento do crime. O modelo ampliou a capacidade operacional e fortaleceu a estrutura criminosa.
De acordo com a polícia, os veículos furtados ou roubados abastecem desmanches clandestinos, o comércio ilegal de peças e são utilizados em outras ações ilegais, o que alimentava um ciclo de financiamento do Comando Vermelho.
A denúncia oferecida pelo Ministério Público descreve uma associação para o tráfico com rígida divisão de funções, hierarquia definida, controle territorial e atuação coordenada entre os integrantes.
Além disso, a Polícia Civil destacou que o tráfico montou um esquema de empresa. Alguns veículos de concessionária, por exemplo, chegavam a ser negociados diretamente para devolução.
Domínio social do Comando Vermelho
Os trabalhos apontam que a estratégia faz parte de um modelo de domínio social estruturado. A Polícia Civil diz que o Comando Vermelho não se limita ao controle armado das comunidades onde atua.
A facção busca expandir a influência sobre o entorno por meio da exploração coordenada de diferentes mercados do crime, da intimidação armada, da ocupação de corredores urbanos estratégicos e da obtenção de recursos capazes de financiar a estrutura e ampliar o poder de atuação.
Assim, o roubo de veículos passou a integrar a estratégia de fortalecimento econômico do grupo criminoso.
Segundo a Polícia Civil, embora o município do Rio de Janeiro apresente redução dos índices consolidados de roubos de veículos, as regiões no entorno da área de influência do Comando Vermelho registraram crescimento das ocorrências.
Um estudo comparativo entre os períodos de janeiro a julho de 2025 e janeiro a julho de 2026 revelou aumento de 58,3% em Santa Teresa (CISP 7), de 17,4% no Centro (CISP 5) e de 15% na Tijuca (CISP 19).
As análises da DRFA-CAP (Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis da Capita) demonstraram que o aumento dos roubos ocorreu em maior parte exatamente no corredor formado pelo Complexo do Fallet-Fogueteiro, Santa Teresa, Centro e Grande Tijuca.
Os locais coincidem com a área em que a investigação identificou a expansão da atuação da facção carioca.
Para a Polícia Civil, a concentração reforça a correlação entre o fortalecimento financeiro do Comando Vermelho, a estratégia de expansão territorial e o crescimento dos roubos de veículos nas regiões.
De acordo com a instituição, o conjunto probatório permitiu o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público e fundamentou os pedidos de prisão preventiva dos investigados.
As ações desta manhã contam com o apoio de equipes dos Departamentos-Gerais de Polícia da Capital (DGPC), Especializada (DGPE), da Baixada (DGPB) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core).

