Marcela Hallack: ‘Nada na feiura é pequeno, ela reflete a nossa condição humana’

As epígrafes traçadas de branco em uma página preta revelam um contraste que chamou a atenção desta jornalista. De um lado, o horror explícito, quase físico e insuportável, de Mary Shelley. De outro, a feiura miúda, invisível e comovente de Macabéa, a personagem de Clarice Lispector por quem o narrador, de “A hora da estrela”, declara-se apaixonado. Imediatamente, quis saber qual feiura se aproxima mais da que encontramos em “Monólogo miúdo da feiura” (Taup, 136 páginas), novo livro de Marcela Hallack. A que choca pelo horror ou a que constrange pela precariedade e pelo desamparo?

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(Foto: Divulgação)

“Essa será uma descoberta do leitor. A Feiura é assim, entificada, e alcança infinitas possibilidades”, diz a poeta, destacando que as citações selecionadas para as páginas iniciais da obra apontam apenas percursos, “sem justificá-los ou esgotá-los”. Marcela também escolheu passagens do “Apocalipse”, de João, de Isaías, de “Hamlet”, de Shakespeare, e de “A divina comédia”, de Dante Alighieri. “O livro encosta em várias facetas da feiura. No meu olhar, há poemas como ‘gaza-r branco’, ‘gramática do estrondo’ e ‘chacina’, que chocam pelo horror, e tantos outros como ‘favo’, ‘a coluna partida’, ‘esmalte’ e ‘reversão’, que constrangem pelo desamparo, mas há ainda outras tantas facetas”, adianta a escritora mineira, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas.

Se comumente o feio aparece como desvio ou contraste do belo, no livro de Marcela Hallack, ele se torna central na estrutura poética. E já aviso: não se trata de uma obra sobre o feio. Este “se estabelece, sim, na estrutura da linguagem.” Ali, há poemas mínimos, cortes secos e silêncios. A autora me diz que se trata de uma reconfiguração estética e de leitura que produz deslocamento e instiga o olhar. “A pontuação invertida, as elipses e a fragmentação gráfica não atuam como ornamento, mas como dispositivos que desorganizam os regimes de leitura, incidindo sobre a produção de sentido e os critérios de beleza. Desvio e quebra configuram modos de objeção, em uma poética da desobediência. A língua, como as histórias que ela abriga, carrega marcas de violência e reinvenção.”

“Monólogo miúdo da feiura” ganhou menção honrosa, em chamada pública, pela editora Toma Aí um Poema e nasce um ano depois de “Versos de Liberdade: um colóquio contemporâneo”, livro de estreia de Marcela na literatura. O lançamento está programado para o dia 8 de julho, às 19h, no Madame Gevah.

Marisa Loures – Gostaria que iniciasse esta conversa explicando a proposta do livro e como surgiu a ideia de escrevê-lo.

Marcela Hallack – Comecei a escrever muito cedo, menina, de forma bastante intimista e, apenas aos 50 anos, em 2025, publiquei meu livro de estreia: “Versos de Liberdade: um colóquio contemporâneo”. Nesse tempo, acumulei escritos, pesquisas e interesses. A Feiura é um interesse persistente, que nasceu há mais de vinte anos, quando comecei a me fazer interrogações acerca do que é belo e do que é feio, e, sobretudo, os porquês. Este assunto se inflamou quando me tornei mãe, na observação insistente do que oferecemos às nossas crianças: o que eu ofereceria aos meus filhos, que tipos de belezas seriam referências, valores a serem mirados? A loja de brinquedos foi o primeiro campo de perquirições, que se alargaram, para alcançar a estética filosófica.

A escolha por poemas mínimos, cortes e silêncios parece mais do que estética: ela sugere uma ética da contenção. Essa forma nasce de uma decisão formal consciente ou de uma necessidade interna do próprio conteúdo?

A escolha por poemas breves, a palavra muitas vezes reduzida ao osso, nasce de uma decisão formal, mas, ao mesmo tempo, de uma necessidade interna do próprio conteúdo. Todavia, pode parecer algo contraditório, já que nada na feiura é pequeno, ela é complexa e reflete a nossa condição humana. O fato é que, para ouvi-la, era preciso uma secura de linguagem. Este Monólogo pediu contenção.

O livro é organizado em três movimentos e transita entre a matéria orgânica, o colapso social e o corpo feminino. A literatura e a arte historicamente impuseram ao corpo da mulher a obrigação do belo, do simétrico e do palatável. Como o conceito de “feiura” trabalhado por você atua como uma ferramenta de libertação ou de denúncia política desse corpo?

O corpo da mulher carrega, culturalmente, a imposição do belo. Umberto Eco (autor de referência nas minhas pesquisas sobre semiótica da feiura), no livro “História da feiura”, trabalha a feiura da mulher, a tradição antifeminina, a bruxaria, o resgate do romântico do feio. O que o “Monólogo” traz, muitas vezes, é a visibilidade, afinal, ninguém chama de feio o que não vê. E, em outros momentos, instiga denúncias sobre imposições culturais contemporâneas ao corpo feminino. Aqui, convido à leitura da primeira série do livro, “Atlas da carne – mapa sem legenda”.

Se a feiura é um operador crítico da percepção, como você imagina que o leitor deve sair dessa experiência de leitura: mais consciente de categorias estéticas ou mais desconfiado delas?

Que tal sair com mais indagações que possibilitem um novo olhar para o mundo e as caixas quadradas dos padrões? Schopenhauer que me perdoe, mas ando a me questionar, ignorando a universalidade e intangilibilidade da beleza: o quanto de criação cultural e política há nos conceitos de beleza e feiura e o quanto são moldados estes conceitos para a manutenção do status quo de determinadas dominâncias de poder?

No poema “Reflexo”, a identidade é construída por repetição (“sou feia / nasci feia / cresci feia”) e só se desloca no encontro com o espelho. Ele introduz uma mudança abrupta de percepção no verso “fiquei bonita no outono”. Essa transformação está ligada a uma mudança interna do sujeito ou a uma alteração do regime de olhar? 

Novamente, inicio minha resposta com uma pergunta: a mudança interna do sujeito não gera também uma alteração do regime do olhar? Fiquei bonita no outono, quando, enfim, me olhei no espelho, representa, metaforicamente, uma beleza na estação da maturidade, em que o supérfluo cai, para dar lugar ao essencial, visando suportar os rigores do inverno. Olhar-se no espelho, olhar-se verdadeiramente, dentro. Afinal, não vemos com o que somos? Já nos disse Fernando Pessoa, no “Livro do desassossego”: “O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”.

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(Foto: Reprodução)

Marcela, o encerramento do livro revela que “Monólogo miúdo da feiura” funciona quase como um manifesto visual e tátil. As ilustrações de Pedro Loures não apenas ilustram, elas instauram “zonas de desconforto”, enquanto o design de Jéssica Iancoski recusa o acabamento convencional usando tipografias ásperas, “viúvas e desalinhos” na diagramação. Como se deu o diálogo entre a sua palavra escrita, o traço incomodo do ilustrador e as escolhas gráficas da designer para garantir que o livro, enquanto objeto físico, também encarnasse a própria feiura que discute?

Foi um fino alinhamento de percepções e sensibilidades que resultaram em um projeto único: uma capa feia, arquitetada pela designer Jéssica Iancoski, que teve também como inspiração, a meu pedido, a obra “Mulher que chora”, 1937, de Picasso. Uma composição visual incômoda e a série visual, em nanquim e aquarela do Pedro Loures, meu filho, somaram-se à linguagem poética do “Monólogo”, formando um todo indizível. Estes dois jovens artistas são extremamente inspiradores.

Em 2025, você estreou com “Versos de liberdade: um colóquio contemporâneo”, um livro cujo próprio título sugere diálogo (colóquio). Agora, você apresenta um Monólogo. O que mudou na sua percepção como autora ao migrar da dinâmica daquele primeiro livro para o isolamento e a fricção propostos neste novo trabalho? 

Na verdade, o “Colóquio” e o “Monólogo” fazem parte de um projeto literário maior, há ainda um terceiro livro. Os três livros e a poesia neles consubstanciada, da qual sou artífice e cúmplice, nascem de um mundo esfacelado e da tentativa de recriá-lo, em alguma medida. Em “Versos de liberdade: um colóquio contemporâneo”, há um diálogo poético que se inicia no âmbito familiar e se alarga para abranger vozes da tradição literária negra brasileira. Ele já trazia traços da feiura entranhada no racismo, por exemplo. No “Monólogo miúdo da feiura”, a linguagem muda, a voz se altera e encarna cenas outras, que alcançam, na terceira série da obra a “Paisagem ruína”, quando quebra não termina. Nesta série, não há ilustração, há páginas cinzas, em tons em degradê que chegam ao branco, no último poema da série, “narciso”, nenhuma flor resiste ao peso da imagem. Há um entrelaçamento muito íntimo entre as obras. O último verso do “Colóquio”: o papel sai voando comigo, leve vento azul. Já o Monólogo, se encerra com o poema “capítulo”: “… bola de gude/ quase a terra/ na mão.” Sem ponto final.

 

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