Fabricio marques
Fabricio marques
Fabrício Marques fala sobre ‘Fora do alcance da memória’, livro que reúne cerca de 25 anos de sua produção poética. O poeta e jornalista tem uma relação especial com Juiz de Fora, pois estudou na UFJF e publicou seus primeiros versos no folheto literário ‘Abre Alas’ (Foto: Guilherme Bergamini)

“No final da Segunda Guerra/Vicente Huidobro entrou com as tropas aliadas em Berlim/Anos depois, em consequência de suas feridas de guerra/sofre um derrame cerebral e morre/ De acordo com seus desejos é enterrado numa colina bem diante do mar/ Sua filha escreve no epitáfio: ‘Aqui jaz o poeta Vicente Huidobro/Aberta a tumba/ — ao fundo dela se vê o mar”. Com esses versos, Fabrício Marques inicia “Como eles morrem.” À maneira de uma matéria jornalística, o texto noticia uma sequência de “momentos finais” de vários poetas, entre eles Ezra Pound, Rimbaud e Charles Baudelaire.

De acordo com o autor mineiro, quando o poema foi escrito, a intenção era mostrar como é solitária a morte dos poetas. Da época de sua criação até hoje, lá se vão alguns bons anos. “Cada poema é uma tentativa de resposta a um estímulo, a um pensamento, a uma experiência que, de algum modo, nos toca. E isso pode mudar com o passar do tempo”, afirma o escritor, em entrevista sobre “Fora do alcance da memória” (Martelo, 208 páginas), livro que reúne um percurso de, aproximadamente, 25 anos de sua produção poética. No entanto, vale pontuar, a obra não se limita a recuperar escritos de outras épocas. Aqueles que já circularam por aqui e ali foram remodelados a fim de dialogar com o projeto da nova publicação.

Além disso há textos que, no presente, passaram a ser compreendidos de outra maneira por seu criador, como é o caso de “Como eles morrem.” Para o autor, a reflexão que o poema propõe sobre as circunstâncias das partida dos poetas hoje alcança uma dimensão mais ampla: de certo modo, diz respeito a qualquer pessoa. “Também compreendo isso agora, nos dá uma clareza de que todos teremos que enfrentar esse momento.”

Fabrício é jornalista. Formou-se em Comunicação Social na Universidade Federal de Juiz de Fora, em 1991, e foi aqui na cidade, no folheto “Abre Alas”, que ele encontrou espaço para publicação de seus primeiros versos. Entre seus livros, estão “Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito”, “A máquina de existir” e “Uma cidade se inventa.”

Marisa Loures — “Fora do alcance da memória” reúne um percurso de aproximadamente 25 anos de produção poética, mas, conforme a apresentação editorial, não se limita a recuperar textos anteriores: eles são remodelados e passam a integrar uma nova composição. Em que momento você percebeu que esse material poderia formar um livro com identidade própria, em vez de simplesmente reunir poemas de diferentes épocas?

Fabrício Marques — Entre 2000 e 2018, publiquei quatro livros de poemas. “Fora do alcance da memória” é um balanço desse período, incluindo poemas inéditos feitos depois disso, até 2025. Na época da pandemia de Covid-19, eu fiquei um pouco “travado”, sem conseguir criar, e foi quando pensei em olhar para a minha produção e tentar entender o significado dela. Foi quando visualizei esse novo livro. Um dos resultados disso foi a intervenção em alguns poemas: assim como uma mesma canção pode ter arranjos diversos, entendi que alguns poemas poderiam ser “rearranjados”, oferecerem uma nova perspectiva com a mudança de uma palavra, a exclusão de um verso, por exemplo.

— O título sugere que há algo que escapa à memória. O que está fora do alcance da memória do poeta?

— O título é um verso de um dos poemas do livro, “Na estação”. A memória é um tesouro em disputa e, ao mesmo tempo, ou talvez por isso, fala de um passado sempre em construção. Eu vivo uma experiência, e quando vou recontá-la, a memória me trai, oculta algumas partes, exacerba outras. Nesse sentido, estar fora do alcance da memória é reivindicar um lugar utópico, talvez impossível. Mas que, pela via da poesia, pode ser acessado.

— O livro está dividido em seis partes. Qual foi o princípio que orientou essa divisão?

— Acho interessante destacar o nome de cada uma das partes, pois eles dão uma ideia sobre os poemas: “Em torno do fogo da vida”, “In furore iustissimae irae”, “Imposturas”, “Associação Brasileira de Versos Circunstantes”, “Brincando nos campos do real” e “Sob um sol difícil”. Em cada seção há um conceito em jogo: respectivamente, a metalinguagem e lances do mundo capitalista, as injustiças sociais de um país periférico, as armadilhas do cotidiano, um espaço para o humor e a ironia, uma visada lírica e o confronto com a morte.

— Depois de tantos anos de escrita, o que você reconhece como uma preocupação persistente em sua poesia e o que precisou mudar para que sua produção continuasse se renovando, sem ficar presa às formas que você já havia encontrado?

— São interesses permanentes, que acontecem simultaneamente: o de falar sempre da perspectiva do tempo presente e de tentar entender o Outro, e também a si mesmo; e, ainda, a dedicação visceral ao trabalho com a linguagem. Lembro de um poema do poeta turco Nazim Hikmet: “o milagre da renovação, meu amor, é a não-repetição da repetição”. Precisamos, então, estar atentos aos paradoxos, às contradições, e, dentro disso, entender que o que fomos faz parte de nós, mas a cada dia somos uma nova pessoa.

— O poeta Armando Freitas Filho aponta que sua poesia se atira em várias direções com “várias dicções e alcances”, num gesto ousado e “sem medo de errar”. Como é conciliar essa liberdade de experimentar linguagens e tons tão diversos sem perder a “mira certeira” do conjunto do livro?”

— Com o passar do tempo, fui tendo a percepção de que a experimentação é algo inerente à poesia. Um poema brinca com os lugares-comuns e clichês (“Congresso Internacional de Frases-Feitas”); outro vai reduzindo o número de versos a cada estrofe (“Sem fôlego”); um outro, ainda, apropria-se da linguagem jornalística (como o citado “Como eles morrem”). Assim, quando reunidos num livro, esses poemas acabam dando alguma coerência a ele.

capa de fora do alcance da memoria
Capa do livro ‘Fora do alcance da memória’ (Foto: Divulgação)

— O também poeta Francisco Alvim chama a atenção para a relação entre forma e conteúdo. Gostaria de saber como você trabalha essa relação. A forma nasce do que o poema precisa dizer ou também interfere naquilo que se torna possível dizer?

—Forma e conteúdo são como duas faces de uma moeda, cara e coroa. São indissociáveis. E creio que pode acontecer as duas coisas, tanto o conteúdo possibilitando a estrutura formal do poema, quanto a forma atuando diretamente no que se quer dizer. Gosto de pensar o que faço como uma poesia-Zelig, em referência ao personagem do filme de Woody Allen, em que o protagonista assume características (sotaque, etnia, profissão) de determinada pessoa ou grupo de que se aproxima. Essa poesia é uma espécie de Zelig porque se apropria de “palavras alheias”, usadas com outra intenção, e dá-lhes uma nova orientação irônica. Essa especificidade pode ser sintetizada no verso de um poema, “Fotografias”, em que inverto um verso conhecido: “Segurem-se/ O outro é um eu”.

— Um de seus poemas, “Nós, o Desocidentado”, propõe uma travessia em que ‘o corpo da escrita e o corpo da terra conversam entre si’. Para você, o que significa “desocidentar” a poesia no cenário contemporâneo?”

— É preciso dizer que o conceito deste poema foi tirado de “Desocidentada: Experiência Literária em Terra Indígena”, de Maria Inês de Almeida. O título parte de uma afirmação de Jacques Lacan (“não há esperança para um ocidentado”), que coloca em questão os limites do pensamento eurocêntrico. No livro, Maria Inês defende que o diálogo intercultural promove uma troca e uma transformação mútua, nos participantes desse diálogo. Desocidentar, portanto, é dar espaço ao indígena, ao quilombola, à mulher, ao negro, à criança, enfim, a toda forma de vida, conversando entre si. No limite, o que vemos hoje, com o recrudescimento da extrema direita no mundo, é que as pessoas simplesmente não conversam, não querem ouvir o que a outra pessoa quer dizer. Ainda assim, há esperança para um desocidentado.

—Já o poema “Mais-valia”, cujo título carrega uma conotação estritamente econômica, mostra que o mercado atribui valor à faca, ao míssil e às ações, mas ignora a poesia e a sinfonia. Qual é a “mais-valia” que a criação poética busca produzir em um mundo sob essa “luz severa” do capital?

—De forma geral, o capitalismo não tem dado o que algumas pessoas esperavam dele. Também gera miséria e exploração. O Millôr Fernandes tem uma frase a esse respeito, sobre a diferença entre capitalismo e comunismo: “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é o contrário”. A “mais-valia” da criação poética é lançar novos objetos no mundo, novos olhares sobre o ser humano. É se posicionar em um lugar específico, como Balzac, quando ele diz: “Faço parte da oposição chamada Vida”.

— Você conta que Juiz de Fora foi o ponto de partida de duas paixões e que, apesar de ter vivido aqui por apenas seis anos, esse foi um dos melhores períodos da sua vida. Foi também na cidade que seus poemas encontraram espaço em publicações como o Abre Alas. O que Juiz de Fora representou na sua formação como poeta e na construção da sua relação com a literatura? Que marcas desse período você ainda carrega?

— O Paulo Mendes Campo disse certa vez que “Todo homem carrega no peito duas cidades mortas”. No meu caso, carrego três cidades vivas: Manhuaçu, onde nasci; Belo Horizonte, onde moro há mais de 30 anos; e, naturalmente, Juiz de Fora, em que passei seis anos mágicos. Fui morar aí para fazer jornalismo na UFJF. Fiz amigos na faculdade e no trabalho, para toda a vida. E foi aí que comecei pra valer a conhecer poetas, publicar meus primeiros poemas, estudar poesia mais a fundo. E chegar junto da turma da pesada do Abre Alas: Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fiorese, Iacyr Anderson Freitas, Júlio Polidoro e o Knorr, que me apresentou à turma toda e também fez a programação visual de meu primeiro livrinho artesanal. Então Juiz de Fora foi importante na minha formação acadêmica, profissional e humanista, é uma cidade ao alcance da memória e do afeto.