A Polícia Federal começou a apresentar nesta quinta-feira (6), o relatório final do Inquérito Policial que apurou as circunstâncias da queda de um avião da Voepass no interior de São Paulo, em agosto de 2024. Segundo o delegado André Ribeiro, a diretoria da companhia aérea orientava os funcionários a não registrarem falhas operacionais.
As investigações apontaram que a Voepass operava sob uma “cultura de omissão” e mantinha um padrão de não reporte de panes nas aeronaves da companhia. Segundo o delegado, a empresa “despachava a aeronave em situação de perigo e cabia ao piloto solucionar os problemas”.
No final do último mês, o relatório final do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) já havia concluído que o acidente foi resultado de uma sucessão de falhas da empresa, da tripulação e da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
Para Ribeiro, a “cultura de omissão era implementada na empresa e ia diretamente em todas as cadeias da empresa”. O delegado ainda exemplificou afirmando que, à época do acidente, “o responsável pelo MCC (Centro de Controle de Manutenção) da empresa, estava com o certificado cassado para atuar na aviação”.
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Depois do acidente, a Anac impôs restrições operacionais à companhia e, em 2025, cassou definitivamente seus certificados de operação e manutenção.
Relatório do Cenipa
Segundo a investigação, a aeronave não deveria sequer ter decolado nas condições em que foi liberada para o voo, pois operava com o sistema Airframe De-Icing, responsável pela proteção contra o acúmulo de gelo, inoperante.
O ATR-72 de matrícula PS-VPB fazia o voo entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP) quando encontrou condições severas de formação de gelo durante o cruzeiro.
O gelo acumulado nas superfícies críticas da aeronave degradou o desempenho do avião, provocando perda de velocidade, estol aerodinâmico, perda de controle e, posteriormente, a queda em uma área residencial de Vinhedo (SP). Os 58 passageiros e os quatro tripulantes morreram.
Falhas detectadas
A comissão de investigação concluiu que a decolagem ocorreu em desacordo com os requisitos operacionais, uma vez que o sistema de proteção pneumática contra gelo estava indisponível.
Além da falha no despacho da aeronave, o relatório identificou erros da tripulação durante o voo. Segundo o Cenipa, os pilotos demoraram a reconhecer a gravidade da degradação de desempenho provocada pelo gelo e não executaram, em tempo oportuno, os procedimentos previstos pelo fabricante para abandonar a área de formação severa de gelo e manter a velocidade mínima de segurança.
O documento ressalta, contudo, que ambos estavam regularmente habilitados e haviam recebido treinamento específico para operações em condições de gelo e recuperação de perda de controle.
O que diz a Anac
Em nota enviada à CNN Brasil, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) informou que iniciará a etapa de análise técnica detalhada das conclusões apontadas e das recomendações relacionadas às competências da Anac.
“As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil”, diz a nota.
Segundo o relatório, a empresa não adotou medidas efetivas para tratar esses eventos, permitindo a normalização de desvios operacionais e reduzindo a percepção de risco entre pilotos e gestores.
Cenipa: avião da Voepass apresentava falhas no sistema antes da queda

