Aleitamento materno avança no Brasil, mas enfrenta pressão da indústria de fórmulas
Aleitamento materno avança no Brasil, mas enfrenta pressão da indústria de fórmulas
Foto: Agência Brasil

A Semana Mundial do Aleitamento Materno (SMAM) de 2026 tem como tema “Amamentação para um começo de vida sustentável: fortaleça o que funciona”. A diretriz internacional, definida pela World Alliance for Breastfeeding Action (Waba), orienta as mobilizações do Agosto Dourado e busca ampliar estratégias que apresentam resultados positivos na promoção e na proteção da amamentação.

Durante o mês, o Ministério da Saúde intensifica as ações de incentivo ao aleitamento materno, considerado fundamental para a nutrição adequada, a segurança alimentar e a redução das desigualdades. O Brasil assumiu o compromisso de alcançar, até 2030, o índice de 70% de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida.

A amamentação voltou a fazer parte da rotina de Lorrany Duarte com o nascimento da filha Elisa, há uma semana. Mãe pela segunda vez, a dona de casa pretende oferecer leite materno em livre demanda e de forma exclusiva durante os primeiros seis meses de vida da criança.

“Desenvolve mais a criança e a imunidade fica sem problemas”, afirma Lorrany.

A decisão também está relacionada à experiência vivida com a primeira filha, nascida há nove anos. Quando a criança tinha um mês, o leite materno foi substituído por fórmula infantil.

“Ela sempre foi muito debilitada, passava mal, sempre ficava doente e demorou muito tempo para crescer, para se desenvolver”, lamentou.

Para enfrentar as dificuldades iniciais da amamentação de Elisa, Lorrany conta com o apoio da irmã mais velha, Marielly Duarte, mãe de três crianças. Ela incentiva a manutenção do aleitamento materno para evitar que a experiência anterior se repita.

“Eu já tirei um monte de leite dela na bomba [de sugar o leite]. É melhor do que tirar na mão. Agora, uma semana depois, já está saindo rapidinho. Tornou-se mais fácil”, relata Marielly.

Fórmulas infantis não substituem leite materno

Em entrevista à Agência Brasil, a presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (DCAM-SBP), Rossiclei Pinheiro, alertou para os obstáculos provocados pela desinformação e pela pressão comercial para a prescrição e a compra de fórmulas infantis.

Segundo a médica, o marketing desses produtos pode levar famílias a acreditar que as fórmulas substituem o leite materno. A especialista também afirma que profissionais de saúde são abordados pela indústria em hospitais, consultórios, redes sociais e eventos.

“O que a gente percebe é que há um marketing muito grande dizendo que essas fórmulas substituem o leite materno, e não substituem. […] É o lobby na porta do hospital, nas redes sociais, nos consultórios, nas datas festivas. Essas indústrias de alimentos tentam de várias formas fazer um assédio ao profissional de saúde”, constata.

Prescrição deve ser feita por especialista

A fórmula infantil pode ser necessária em situações específicas, desde que exista recomendação de um pediatra ou nutricionista. Entre os casos citados pela especialista estão contraindicações médicas para a amamentação, impossibilidade de realizar o aleitamento, dificuldades persistentes no processo e alergias apresentadas pelo bebê.

Rossiclei classifica as fórmulas como alimentos ultraprocessados destinados a condições determinadas. Ela alerta, no entanto, que esses produtos podem ser comprados livremente em farmácias, mesmo sem uma indicação baseada nas necessidades da criança.

Nos últimos cinco anos, a Sociedade Brasileira de Pediatria tem investido na formação acadêmica e na atualização de pediatras sobre os critérios de prescrição de fórmulas e o manejo da amamentação. A capacitação inclui orientações para situações como dor, fissuras nos mamilos e ingurgitamento mamário, popularmente conhecido como “leite empedrado”.

“O leite materno vai ser o melhor para o resto da vida da criança”, destacou a Dra. Rossiclei Pinheiro.

Amamentação reduz despesas das famílias

Além dos benefícios para a saúde, a promoção do aleitamento materno está relacionada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo Rossiclei, as famílias que mantêm a amamentação podem reduzir despesas com fórmulas e medicamentos. A especialista explica que crianças amamentadas tendem a adoecer menos, o que também pode diminuir as ausências dos responsáveis no trabalho e facilitar o planejamento da mãe para o retorno às atividades profissionais.

Legislação restringe propaganda

No Brasil, a comercialização de produtos destinados a lactentes e crianças na primeira infância é regulamentada pela Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância (NBCAL), amparada pela Lei 11.265/2006.

A legislação proíbe que médicos, como pessoas físicas, recebam patrocínios financeiros ou materiais relacionados a esses produtos. A norma também restringe a propaganda de mamadeiras, bicos artificiais e chupetas e impede a distribuição desses itens a recém-nascidos considerados de alto risco.

As embalagens não podem apresentar imagens de crianças nem frases que provoquem dúvidas sobre a capacidade das mães de amamentar.

A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que o uso de mamadeiras, chupetas e outros bicos artificiais pode comprometer o aleitamento. Entre os riscos estão a chamada confusão de bicos, causada pela alteração da mecânica de sucção da criança, a redução do estímulo para a produção de leite e o desmame precoce.

“Nós desestimulamos o uso de bicos que possam competir com a amamentação, que são as chupetas e as mamadeiras”, destacou a representante da Sociedade Brasileira de Pediatria, Rossiclei Pinheiro.

Brasil estabelece meta para 2030

A Semana Mundial do Aleitamento Materno de 2026 pretende reconhecer, valorizar e ampliar iniciativas que já demonstraram resultados na proteção, promoção e assistência à amamentação.

Em agosto de 2024, o Brasil assumiu o compromisso de alcançar 70% de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida até 2030. A meta brasileira é superior ao índice de 60% estabelecido pela Assembleia Mundial da Saúde em novembro daquele ano.

Dados da primeira edição do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostram que o percentual de aleitamento materno exclusivo no país passou de 4,7%, na década de 1980, para 45,8% em 2019.

A pesquisa domiciliar avalia as práticas de amamentação, o consumo alimentar e o estado nutricional de crianças de até seis anos. Na edição iniciada em 2025, pesquisadores visitaram famílias com filhos nessa faixa etária em diferentes regiões do Brasil.

Para a representante da Sociedade Brasileira de Pediatria, o avanço da amamentação no país demonstra a importância de políticas públicas consolidadas, como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança.

“Nossas políticas públicas estão interligadas com todo o contexto do atendimento da criança. Hoje, por exemplo, o aleitamento materno é uma estratégia de saúde pública para diminuir a mortalidade infantil, a mortalidade materna, diminuir a desigualdade social. Todo esse acesso a informações é uma política pública”.

Texto reescrito com o auxílio do Chat GPT e revisado por nossa equipe

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