luto prolongado

O luto é uma experiência natural diante da perda de alguém significativo, mas não existe uma única maneira — nem um ritmo igual para todos — de atravessar esse processo. Enquanto algumas pessoas conseguem gradualmente se reorganizar diante da ausência, outras podem permanecer em sofrimento intenso, com impactos na rotina, nos relacionamentos e na qualidade de vida.

Para explicar como diferenciar as manifestações esperadas do luto de situações que precisam de atenção especializada, Marcelo Juliani conversou, no Tribuna no Ar, com a Dra. Vanessa Portela, médica pós-graduada em Psiquiatria e voluntária do Ambulatório de Apoio ao Luto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Luto não acontece da mesma forma para todos

Segundo Dra. Vanessa, o luto é um processo adaptativo universal desencadeado pelo rompimento de um vínculo significativo. A forma como cada pessoa reage, entretanto, está diretamente relacionada à própria história e ao significado daquela relação.

Uma das formas utilizadas atualmente para compreender esse processo é o chamado modelo dual do luto. Nele, a pessoa pode alternar entre momentos mais voltados para a perda — marcados por saudade, tristeza e dificuldade de aceitar a ausência — e outros de reorganização, nos quais começa a se adaptar à nova realidade. Isso significa que a evolução não necessariamente ocorre de maneira linear. Dias de maior disposição e retomada da rotina podem ser seguidos por períodos em que a ausência e a saudade voltam a ser sentidas com maior intensidade.

O que é o transtorno do luto prolongado?

Não há um prazo único que determine quando alguém deveria deixar de sentir a dor da perda. Existem, porém, critérios clínicos utilizados para identificar o chamado transtorno do luto prolongado, quando o sofrimento persiste de forma intensa e provoca prejuízos importantes à vida.

Durante a entrevista, a médica explicou que os manuais diagnósticos adotam critérios temporais diferentes. Além do tempo transcorrido desde a perda, a avaliação considera principalmente a intensidade dos sintomas, a forma como eles se manifestam e o impacto provocado no cotidiano.

A especialista também destacou que o transtorno do luto prolongado não é sinônimo de depressão. As condições podem, contudo, aparecer simultaneamente. Quadros de estresse pós-traumático também podem estar associados, especialmente quando a morte ocorre de maneira violenta ou traumática.

Saudade e tristeza fazem parte do processo de luto. O sinal de alerta surge quando o sofrimento permanece muito intenso e passa a comprometer diferentes aspectos da vida.

Entre as manifestações que merecem atenção estão saudade ou anseio persistentes, pensamentos recorrentes relacionados à perda, isolamento social, dificuldade de reconstruir a própria identidade e sensação de que a vida perdeu o sentido.

A psicoterapia é apontada pela médica como o principal recurso no tratamento do transtorno do luto prolongado. A avaliação médica ou psiquiátrica também pode ser necessária quando existem outros transtornos associados ou quando o sofrimento se torna incapacitante.

Perder um filho pode trazer desafios específicos

A entrevista também abordou perdas que rompem expectativas culturalmente construídas sobre o ciclo da vida, como a morte de um filho antes dos pais. Vanessa explica que situações como essa podem representar um fator de risco para uma elaboração mais difícil do luto por provocarem o rompimento do chamado “mundo presumido” — o conjunto de expectativas que construímos sobre como imaginamos que a vida irá acontecer.

Isso não significa que exista uma hierarquia objetiva entre diferentes perdas, mas que determinadas circunstâncias podem acrescentar fatores de vulnerabilidade e precisam ser consideradas no acompanhamento de cada pessoa. Uma das barreiras para procurar ajuda é a sensação de que diminuir o sofrimento poderia representar uma forma de esquecer a pessoa que morreu ou de abandonar sua memória.

A especialista chama atenção justamente para essa associação. Elaborar o luto não significa apagar o vínculo construído. O acompanhamento busca ajudar a pessoa a conviver com a ausência e encontrar formas de reorganizar a própria vida sem que isso represente negar a importância de quem morreu.

Por que precisamos falar sobre a morte?

Para Dra. Vanessa, a morte ainda é um tabu e ampliar essa conversa pode ajudar as pessoas a compreender melhor o luto antes mesmo de precisarem enfrentá-lo. O assunto também pode ser trabalhado com crianças e adolescentes, desde que a comunicação respeite a idade e a capacidade de compreensão de cada faixa etária. Falar sobre a morte não elimina a dor provocada por uma perda, mas pode contribuir para que sentimentos sejam reconhecidos, dúvidas sejam acolhidas e a busca por ajuda deixe de ser encarada como sinal de que alguém não conseguiu enfrentar o luto sozinho.