A Doença de Creutzfeldt-Jakob, condição neurológica rara e de rápida progressão, ganhou repercussão nas redes sociais após o influenciador Lito Sousa divulgar seu diagnóstico. A notícia despertou dúvidas sobre uma doença ainda pouco conhecida pela população e que atinge cerca de uma a duas pessoas a cada milhão. Mas o que provoca a condição? Quais são os primeiros sintomas e por que o diagnóstico pode ser tão difícil? Em entrevista ao programa Tribuna no Ar, da Rádio Antena 1 Juiz de Fora, o neurocirurgião Dr. Renan Calabro explicou como a doença afeta o cérebro, as formas de diagnóstico e o que a medicina já sabe sobre tratamento.
O que é a Doença de Creutzfeldt-Jakob?
Segundo o neurocirurgião, a Doença de Creutzfeldt-Jakob está relacionada a alterações em proteínas chamadas príons. Essas proteínas, quando apresentam uma conformação anormal, podem desencadear alterações em outras proteínas presentes no cérebro, provocando progressivamente a morte de neurônios. Diferentemente de doenças provocadas por vírus ou bactérias, a DCJ está relacionada a esse processo anormal envolvendo proteínas do próprio organismo. A maioria dos casos ocorre de forma esporádica. Existem formas hereditárias da doença, mas elas são raras, e o diagnóstico de um paciente não significa necessariamente que filhos ou outros familiares também desenvolverão a condição. “Ela é uma condição da própria pessoa, não é uma condição que passa geralmente para filhos, netos. Ela pode sim ser hereditária, mas por ser uma doença muito rara… não é uma doença por bactéria, por vírus; ela é uma deformidade das nossas proteínas, ou seja, é um erro das nossas proteínas que acaba desenvolvendo uma série de erros consequentes para as outras proteínas do cérebro.”, explica Dr. Renan.
Uma das dificuldades da Doença de Creutzfeldt-Jakob está justamente na variedade de suas manifestações. Os sintomas dependem das regiões cerebrais atingidas e podem envolver alterações cognitivas, comportamentais, visuais e motoras. Nos estágios iniciais, os sinais podem ser discretos. Uma pessoa pode começar, por exemplo, a apresentar pequenas dificuldades para escrever, mudanças na fala ou redução da velocidade com que executa determinadas atividades. Com a progressão da doença, podem surgir dificuldades para caminhar e falar, além de comprometimento cognitivo e mudanças comportamentais. Essa variedade também pode dificultar o diagnóstico inicial, já que alguns sinais podem ser confundidos com os observados em outros quadros de demência e doenças neurológicas.

De acordo com Dr. Renan Calabro, o diagnóstico depende inicialmente de uma avaliação detalhada do quadro clínico do paciente. Exames complementares ajudam na investigação. Entre os principais recursos estão a ressonância magnética do cérebro e a análise do líquor, líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal. A combinação das manifestações clínicas com os resultados dos exames permite aos especialistas diferenciar a DCJ de outras condições que também podem provocar perda de memória, alterações motoras ou declínio cognitivo.
A relação entre a Doença de Creutzfeldt-Jakob e a chamada “doença da vaca louca” costuma gerar dúvidas. Durante a entrevista, o neurocirurgião explicou que não se trata exatamente da mesma situação. A chamada variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob ficou conhecida principalmente pela associação com o consumo de produtos contaminados durante a crise da encefalopatia espongiforme bovina, especialmente nas décadas de 1980 e 1990. Essa é apenas uma das formas relacionadas às doenças causadas por príons e não deve ser confundida automaticamente com a forma esporádica da DCJ.
Existe tratamento para a doença?
Atualmente, segundo o especialista, não existe cura nem tratamento específico estabelecido capaz de interromper a progressão da Doença de Creutzfeldt-Jakob. O acompanhamento é multidisciplinar e direcionado ao controle dos sintomas e à qualidade de vida do paciente. Neurologistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e outros profissionais podem participar do cuidado conforme as manifestações apresentadas. Pesquisas experimentais realizadas em centros especializados buscam formas de interferir nos mecanismos envolvidos na alteração das proteínas e, consequentemente, retardar a evolução da doença. Essas estratégias, entretanto, ainda estão no campo da investigação científica. Por se tratar de uma doença rara e com sintomas que podem inicialmente se confundir com outras condições neurológicas, a avaliação especializada é fundamental diante de alterações cognitivas, comportamentais ou motoras de rápida evolução.
