
Resíduos de espumas, plásticos e artigos infantis descartados podem carregar substâncias tóxicas associadas a alterações hormonais, problemas reprodutivos e aumento do risco de câncer, segundo um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros. A pesquisa identificou compostos usados no passado pela indústria como plastificantes e retardantes de chama em materiais encontrados em locais de descarte e reaproveitamento.
O levantamento aponta que a reciclagem sem uma triagem química adequada pode transformar esses resíduos em uma fonte de contaminação, fazendo com que substâncias presentes em produtos antigos sejam incorporadas a novos materiais e retornem ao ciclo de consumo.
O estudo foi realizado por pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICTS-Unesp), em Sorocaba, em parceria com a Universidade de Birmingham, no Reino Unido. A equipe analisou a presença de ésteres organofosforados clorados em resíduos sólidos coletados no interior de São Paulo.
Esses compostos foram utilizados durante anos na fabricação de produtos como espumas de poliuretano para móveis e colchões, peças plásticas de equipamentos eletrônicos, artigos infantis e materiais de isolamento para construção civil. Entre as substâncias identificadas estão o tris (1-cloro-2-propil) fosfato (TCIPP), o TDCIPP e o TCEP.
De acordo com os pesquisadores, esses compostos têm potencial tóxico e podem afetar os sistemas endócrino e reprodutivo, além de apresentar relação com o desenvolvimento de câncer. A exposição pode ocorrer pelo contato direto com materiais contaminados, pela ingestão ou pela inalação de partículas liberadas pela degradação dos produtos.

Compostos foram encontrados em 95% das amostras
Ao todo, foram analisadas 207 amostras divididas em quatro categorias: resíduos de construção e demolição, veículos em fim de vida útil, estofados e artigos infantis.
Os materiais foram coletados em diferentes pontos da região metropolitana de Sorocaba, incluindo um centro de desmanche de veículos, um aterro sanitário de resíduos da construção civil, associações de reciclagem e empresas de fabricação e reforma de estofados.
Segundo o engenheiro ambiental David Burgos, da Unesp, 95% das amostras apresentaram pelo menos um dos compostos analisados. Em 13 delas, os níveis encontrados ultrapassaram o limite considerado mais preocupante.
A pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi orientada pelo professor André Henrique Rosa, do ICTS-Unesp.
Segundo Rosa, os dados são importantes para ampliar o conhecimento sobre contaminantes presentes nos resíduos brasileiros. Ele afirma que, sem informações sobre essas substâncias, a implementação de políticas de economia circular e a proteção dos trabalhadores envolvidos na reciclagem ficam prejudicadas.
Risco na reciclagem sem controle
Parte dos compostos encontrados já foi restringida por acordos internacionais, como a Convenção de Estocolmo, que busca reduzir a presença de poluentes orgânicos persistentes no ambiente.
De acordo com Burgos, a proibição da fabricação de novos produtos com essas substâncias não elimina os materiais que já foram produzidos. Sem análise química ou tratamento adequado, esses resíduos podem transferir os contaminantes para novos produtos reciclados.
“O Brasil tem metas de reciclagem e promove logística reversa de eletrônicos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos e tudo isso é necessário. Mas nossos resultados mostram que reciclar sem triagem química pode transformar a economia circular num vetor de recirculação de contaminantes: substâncias tóxicas de um produto antigo acabam num produto novo”, afirmou o pesquisador.
Ele destaca que alguns retardantes de chama bromados, anteriormente utilizados pela indústria, foram substituídos por compostos organofosforados clorados, que também apresentam toxicidade e ainda não possuem o mesmo nível de regulamentação.
Órgãos discutem controle de resíduos
Segundo os pesquisadores, a responsabilidade pela identificação e controle desses materiais envolve diferentes órgãos ambientais. O monitoramento inclui instituições federais, estaduais e municipais, além dos próprios geradores de resíduos, conforme estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou que a triagem de materiais eletrônicos é atribuída ao Grupo de Acompanhamento de Performance, formado por entidades representantes de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou que os retardantes bromados usados em novos equipamentos eletrônicos já são proibidos no Brasil, seguindo acordos internacionais. Segundo a pasta, o principal risco atualmente está em equipamentos antigos, como televisores e monitores de tubo fabricados antes de 2005.
Ainda conforme o ministério, os sistemas de logística reversa existentes garantem coleta, triagem, rastreabilidade e destinação dos resíduos eletrônicos, mas não possuem protocolos específicos para identificar a presença de determinados contaminantes.
Texto com informações da Agência Fapesp, reescrito com o auxílio do Chat GPT e revisado por nossa equipe

