O MPSP (Ministério Público de São Paulo) denunciou quatro pessoas por suposta participação em uma rede de inteligência do PCC (Primeiro Comando da Capital) voltada para o monitoramento estratégico de autoridades públicas para viabilizar possíveis atentados contra elas.

As investigações apontam que o grupo investigado estaria ligado ao planejamento dos atentados contra o coordenador de presídios da região Oeste de São Paulo, Roberto Medina, e o promotor de Justiça Lincoln Gakiya.

Na denúncia, protocolada na segunda-feira (27), o MP aponta que o grupo funcionava com uma divisão rígida de tarefas, onde cada integrante realizava uma função específica sem necessariamente conhecer a totalidade do plano, o que dificultava a detecção do esquema pelas autoridades.

Além de detalhar a ligação dos denunciados com a facção criminosa, o documento ainda cita que os investigados atuaram no levantamento detalhado de rotinas, endereços e dados de autoridades públicas.

Assim, de acordo com as investigações, o grupo reunia o material com a finalidade de repassar as informações para a “Sintonia Restrita”, setor responsável pela coordenação de ações de maior relevância estratégica do grupo e que efetivaria o atentado contra as vítimas.

Segundo o documento obtido pela CNN Brasil, entre os denunciados estão:

  • Victor Hugo da Silva (vulgo “VH”): apontado como executor operacional, realizando a vigilância de campo, filmando trajetos e residências (especialmente de Roberto Medina) e colhendo placas de veículos;
  • Wellison Rodrigo Bispo de Almeida (vulgo “Corinthinha”): investigações dizem que homem atuava como coordenador e operador logístico, sendo o interlocutor que recebia os dados colhidos por Victor Hugo para repassá-los ao setor de execução da facção;
  • Sérgio Garcia da Silva (vulgo “Messi”): seria o responsável pelos levantamentos em Presidente Prudente (interior de São Paulo), focando na rotina do promotor Lincoln Gakiya, além de intermediar a negociação de fuzis;
  • Adilson Audinir Oliveira Junior (vulgo “Ju Machado”): apontado como interlocutor e colaborador direto de Sérgio em tratativas sensíveis vinculadas à organização, e era responsável por auxiliar na ocultação ou destruição de vestígios digitais e provas incriminatórias.

A denúncia também aponta que os integrantes do grupo atuavam na estrutura interna e hierarquizada do PCC ao menos desde junho de 2025.

Entre as provas identificadas nas investigações estão vídeos e áudios nos celulares dos réus descrevendo a rotina das vítimas, além de registros nos dispositivos eletrônicos que comprovam a presença dos denunciados em pontos estratégicos de vigilância.

Segundo o documento, também foram encontrados documentos em unidades prisionais, onde Sérgio daria ordens para apagar contas de e-mail e “resetar” aparelhos de forma remota.

No documento, o MP ainda aponta que o grupo investigado não seria denunciado pelo crime de ameaça, mas sim por integrar a organização criminosa armada. Isso porque, no entendimento das autoridades, embora dada as condutas de monitoramento, não houve comunicação direta de intimidação às vítimas por meio de palavras, escritos ou gestos.

A CNN Brasil tenta localizar a defesa dos citados e o espaço segue aberto.

Relembre plano do PCC contra autoridades

Em outubro do ano passado, o MPSP e a Polícia Civil realizaram uma operação que mirou planos do PCC para atacar autoridades de São Paulo. Entre os alvos estavam Medina e Gakiya. Ao todo, a ação cumpriu 25 mandados de busca e apreensão contra o grupo.

As investigações mostraram a existência de uma célula do crime organizado estruturada e altamente disciplinada.

O setor seria responssável por realizar levantamentos detalhados da rotina de autoridades públicas e de familiares das possíveis vítimas, onde o objetivo seria preparar atentados contra os alvos previamente selecionados.

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Após a prisão de traficantes em Presidente Prudente, a Justiça extraiu dados de celulares apreendidos e constatou o monitoramento de Medina, assim como de Gakiya, com mapeamento e filmagem de seus trajetos e veículos.

Gakiya afirmou que Medina “já poderia ter sido executado”, dada a ausência de escolta do coordenador. De acordo com as investigações, as informações sobre a vida e rotina de Roberto Medina já estavam em posse do núcleo “Sintonia Restrita”.

Promotor supervisionado

Outro núcleo da facção estava encarregado de levantar a rotina de Gakiya, com prints de tela de seu caminho para o trabalho e academia, além da locação de um imóvel a apenas 900 metros de sua casa.

À época, Gakiya afirmou que o PCC chegou a enviar drones para monitorar a residência onde ele mora, no interior de São Paulo.

O promotor vê ligação desses atos com a execução do ex-delegado geral da Polícia Civil Ruy Ferraz Fontes, de 63 anos, em setembro do último ano. Segundo o promotor, o mesmo “salve” enviado pelo PCC determinando a morte de Ruy Ferraz também determinava a execução de Medina e dele próprio.

Condenação por plano de execução

Em fevereiro deste ano, a Justiça de São Paulo condenou Victor Hugo da Silva e outro integrante da facção, identificado como Gabriel Custódio dos Santos, por envolvimento no plano de execução de Gakiya e Medina.

Eles já haviam sido presos preventivamente por tráfico de drogas em outubro de 2025 e foram condenados a cinco anos e sete anos de reclusão em regime inicial fechado, respectivamente.

Na decisão da condenação, a juiza Sizara Corral de Arêa Leão Muniz Andrade, da 3ª Vara Criminal de Presidente Prudente, rejeitou o pedido de recurso em liberdade e manteve a prisão preventiva dos réus.

A magistrada afirma que, visto a ligação de Victor Hugo com a facção, a soltura resultaria na “imediata retomada do tráfico de drogas”. Sobre Gabriel, a juíza cita a reincidência criminal como “perigo gerado pelo estado de liberdade” e ainda uma tentativa de fuga, que revela a “a imprescindibilidade da contenção física para a aplicação da lei penal”.