Avanços no diagnóstico e no tratamento do câncer de pulmão estão aumentando a sobrevida de pacientes e mudando a forma como médicos encaram até mesmo casos avançados da doença. Pacientes que antes tinham uma perspectiva limitada de sobrevida agora podem permanecer anos com a doença controlada.
Dados do relatório Cancer Statistics 2026, da American Cancer Society (ACS), mostram essa mudança nos Estados Unidos. Entre pacientes com câncer de pulmão metastático, a sobrevida relativa em cinco anos passou de 2% em meados da década de 1990 para 10% entre pessoas diagnosticadas de 2015 a 2021. Nos casos em estágio regional, o índice avançou de 20% para 37%.
À CNN Brasil, durante o Congresso de Oncologia das Américas, o médico-oncologista Luiz Henrique Araújo, diretor regional da Oncologia Américas no Rio de Janeiro, afirma que a mudança já pode ser observada nos consultórios, inclusive entre pacientes com doença avançada.
“Uma coisa impressionante que a gente está vivendo é que pulmão era visto como uma doença muito ruim. E a gente cada vez mais está falando de pacientes que estão vivendo 3, 4, 5, 10 anos com doença avançada, que era um negócio que não existia”, afirma.
Araújo relata acompanhar, por exemplo, um paciente com câncer metastático que está próximo de completar dez anos desde o início do acompanhamento.

“Eu estou com um paciente com imunoterapia metastática, metástase cerebral, metástase do corpo inteiro, que vai completar 10 anos agora. Isso simplesmente não existia”, conta.
Os casos individuais não significam que todos os pacientes com câncer de pulmão avançado alcançarão esse tempo de sobrevida. Os dados da ACS, porém, mostram uma melhora populacional importante nas últimas décadas.
O próprio relatório destaca que alguns dos maiores ganhos ocorreram justamente entre cânceres historicamente associados a alta mortalidade e em pacientes diagnosticados em estágios avançados.
Imunoterapia ajudou a mudar cenário
Para Araújo, não existe um único avanço responsável pela transformação. Diagnósticos mais precoces, cirurgias menos invasivas, radioterapia e uma compreensão maior das características biológicas dos tumores contribuíram para mudar o tratamento.
Na oncologia clínica, entretanto, ele destaca principalmente a chegada da imunoterapia.
Em terapias sistêmicas, basicamente imunoterapia, foi o que virou a chave
Diferentemente da quimioterapia tradicional, a imunoterapia atua estimulando ou restabelecendo a capacidade do sistema imunológico de reconhecer e combater células cancerígenas. Araújo compara o processo a fornecer uma nova instrução ao organismo.
“É como se fosse uma vacina que faça o corpo reentender aquilo e atacar. […] O corpo aprende a lidar com aquilo”, explica.

A evolução não se limita à imunoterapia. As chamadas terapias-alvo, desenvolvidas para atingir características moleculares específicas presentes em determinados tumores, também têm ampliado as possibilidades de tratamento.
Segundo a American Cancer Society, os avanços na sobrevida por câncer nas últimas décadas estão relacionados a uma combinação de redução do tabagismo, diagnóstico mais precoce e melhores tratamentos.
Câncer de pulmão ainda é um dos mais letais
Apesar dos avanços, os números não significam que o câncer de pulmão deixou de representar uma doença grave.
A American Cancer Society estima que o câncer de pulmão continuará sendo a principal causa de morte por câncer nos Estados Unidos em 2026, provocando mais mortes do que os cânceres colorretal e de pâncreas, segundo e terceiro colocados, somados.
Além disso, cerca de três em cada quatro pacientes com câncer de pulmão são diagnosticados quando a doença já avançou para além do órgão.
É justamente nesse cenário que, segundo Araújo, a possibilidade de acompanhar alguns pacientes durante muitos anos representa uma mudança significativa na prática médica.
“Não é uma revolução, mas, quando você pisca o olho, você vai ver que essas pequenas evoluções que fazem a ciência foram se somando. E quando você pisca o olho, você fala: ‘Poxa, de verdade, é revolucionário’”, afirma.
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