
Com cabelos longos, blusa larga, unhas de gel decoradas e patins nas mãos, Clara Downey, de 29 anos, se define como uma pessoa tímida. O contrário é Miss Ratazana, sua personagem, criada em 2021, em um momento em que sentia especial necessidade de liberdade. É ela que dá conta de expor o que pensa e de estar em foco. A criação nasceu como forma de unir suas duas paixões e trabalhos, a arte e os patins, e gerou um fruto um tanto estranho: uma rata, vestida de saia de bolinhas e já com o quad nos pés.
A sensação de ter criado uma outra versão de si que arrota, fala o que pensa e incomoda, foi de desprendimento do que acreditava tanto sobre arte quanto sobre si mesma. “Eu toco a Ratazana com o pior que eu puder pensar, a ideia mais esquisita que vier na cabeça, é essa que eu vou fazer”, conta Clara. Atualmente, o projeto com a personagem é divulgado nas redes sociais em Juiz de Fora e tem diversos desdobramentos, que incluem documentários, desfiles e outras intervenções.

Foi depois da pandemia de Covid-19 que Clara percebeu algo importante sobre si mesma, que impulsionaria a criação da Miss Ratazana. Quando o mundo inteiro precisou fazer isolamento social, ela notou que o período de ficar em casa e longe das atividades na rua não foi difícil para ela — mas, quando precisou voltar à rotina e sair, começou a ter uma dificuldade maior para voltar a socializar.
“Fui investigando e descobri um diagnóstico de autismo. Depois de 25 anos trabalhando no automático, vi que isso era demais. O patins entrou como um hiperfoco meu. Tinha interesse em saber o nome de todas as manobras, conhecer todas as patinadoras”, relembra Clara, que recuperou o instrumento depois de ter tido uma época patinando, em 2018, e ter tido também uma infância em que brincava no patins, ainda sem levar tão a sério. A vontade de praticar foi o que começou a fazer com que saísse de casa novamente e até pensasse em viajar para se aprofundar no esporte radical.
Naquele mesmo momento, ela também estava refletindo sobre suas formas de expressão artística, que já passaram desde o teatro até a fotografia e as artes plásticas. Formada em Artes e Design, ela conta que a faculdade muitas vezes cria uma demanda por aprovação e um processo muito forte de confronto com o artista, fazendo com que se afaste da própria produção. Foi quase concomitantemente a esse processo de voltar a patinar que ela também estava voltando a desenhar, e aí veio a criação da personagem a partir do que vivenciava na rua.
“Tinha vergonha de estar ali, de cair na frente das pessoas, mas comecei de novo a ressignificar a minha presença no espaço público. De entender que eu também posso estar aqui, esse espaço também é meu, é de todos nós”, reflete ela. E trouxe isso pra arte, inclusive refletindo sobre as violências a que as mulheres são submetidas no meio urbano e no esporte, sempre majoritariamente masculino — inclusive nas pistas nas quais pratica. “Para uma pessoa que já tem dificuldade de sair de casa, quando sai, ainda percebe tantas dificuldades e recebe violências. Comecei a sentir raiva e trazer isso pro meu trabalho. Com vontade de expor mesmo o que acontece quando você só tenta viver”, diz.
O nome da personagem foi inspirado na própria trajetória, pois já era chamada de “ratazana” pelos amigos por seu jeito “meio hiperativo” quando está fora das pistas. “Ao mesmo tempo, eu também sou toda barbiezinha, e quis trazer isso. Minha ideia é mostrar representatividade nos esportes radicais e quebrar essa vergonha para mostrar para as mulheres que a gente pode estar aqui, que esse espaço também é nosso. A gente não precisa ter vergonha, a gente não precisa ter medo. Que existem ferramentas pra gente lutar contra isso. Sendo uma ratazana”, diz.
Apesar de a Ratazana trazer essa perspectiva, Clara conta se entender como uma pessoa não binária, sendo que a personagem funciona como sua “drag”. Mas considera que sua perspectiva oferece um olhar interessante para perceber essas relações de gênero enraizadas na sociedade, que deixam os homens à vontade para pertencerem à cultura urbana, e ao mesmo tempo faz com que as mulheres tenham que, a todo tempo, zelar pela própria segurança nesses locais. “Talvez por como eu me vejo, frequento de outra forma os espaços. E aí eu consigo ver as dificuldades que as mulheres estão sentindo e que os caras estão impondo, por negar um pouco esse lugar que me é colocado”, reflete.

Multiplicidade de expressões
Desde que começou a compartilhar os primeiros desenhos da Miss Ratazana, criou uma comunidade de pessoas que se identificavam com os desabafos e também com o deboche que a personagem trazia — inclusive porque a modalidade de patins que pratica é nova, e também atua dando aulas para quem quer iniciar a prática. Clara, que já tinha participado de editais de cultura e estava cursando o mestrado na mesma área de formação, começou também a vender produtos com a personagem, e seu trabalho se expandiu.
“Fui entrando em áreas da arte em que nunca achei que eu fosse entrar. Agora, vou publicar uma tirinha em uma revista coletiva de Curitiba. Eu tô muito feliz, muito animada”, conta. Para ela, “as piores ideias” passaram a ter um lugar especial na prática — são essas que estão deslanchando, mesmo quando inicialmente estão indo contra o que se impunha na arte, no que diz respeito à poética, conceito e técnica.
Caminho importante neste sentido foi o documentário “Garotas radicais”, que conta um pouco da vivência das mulheres de Juiz de Fora na pista de skate. E, mais recentemente, o desfile de moda “Sórdida”, que trouxe uma coleção de moda feita em parceria com Ana Luiza Monteiro voltada para atletas urbanos, que tem um EPI autoral feita para proteger o corpo quando frequenta esse espaço. Para isso, são utilizadas roupas de brechó, antigas e mais resistentes, só que estilizadas para o meio urbano. Como destaca: “A ideia é proteger esse corpo que vai para rua praticar e dar a oportunidade de ele mostrar a sua identidade”.

A autoestima da rata
Desde que começou como Miss Ratazana, muita coisa mudou para Clara. Principalmente no que diz respeito à sua autoestima e ao que valoriza na sua vida. Para que essa mudança de pensamento acontecesse, foi quase uma “terapia de choque” em relação à própria imagem: “Coloquei as piores imagens que produzi de mim mesma na internet, com a lógica de que nunca ninguém vai poder postar uma foto tão feia minha. Assumi o controle sobre a minha própria imagem. Então, comecei a postar bonita também, mas horrorosa. E isso foi me dando controle. Quando trouxe a Miss Ratazana, já não tinha vergonha de mostrar pelo na perna ou arrotar. E são sempre coisas masculinas, né?”, conta Clara.
A partir disso, viu o que importava mais para a sua essência também mudar. “Quando mais nova, pensamos ‘sou feia, me visto mal, preciso ser linda, preciso ser descolada, preciso não sei o quê’. E, hoje em dia, a minha autoestima está muito mais ligada ao que eu faço, porque eu tenho confiança no que eu estou produzindo, para onde eu estou indo.”

