
A frase de Ulysses Guimarães, conhecido como “Senhor Diretas”, continua atual: “A única coisa que mete medo em político é o povo na rua!”. E, ao que tudo indica, não por acaso. Quem ocupa o poder parece temer cada vez menos a revolta popular. Defensor da liberdade e da pressão das ruas, enfrentou o regime de restrição democrática, participou da abertura política e presidiu a Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição de 1988.
Ele sabia que uma sociedade livre não se sustenta apenas em discursos, eleições ou bandeiras partidárias. Precisa de cidadãos dispostos a acompanhar, questionar e cobrar quem recebe o mandato para representá-los. O problema é que o momento atual parece seguir uma fórmula conveniente: estimular divisões, alimentar paixões e transformar escolhas em disputas entre lados. Uns defendem os seus. Outros atacam os adversários. E, no meio da briga, quase ninguém pergunta quem está realmente trabalhando pelo interesse público.
Mandato não é salvo-conduto. Quem recebe confiança para governar deve prestar contas a quem concedeu essa confiança. Sem fiscalização, o abuso encontra espaço. Defender um erro só porque veio do próprio lado não é lealdade. É cumplicidade. Enquanto uns aplaudem, a esperteza trabalha. Revolta restrita à tela pouco assusta os gabinetes. Curtidas passam, comentários desaparecem e a rotina continua. A rua é diferente. Ali, a indignação ganha presença e o silêncio perde força. Elogio não assusta. Reclamação isolada não basta. Indignação passageira desaparece.
Presença popular é outra história: transforma revolta em pressão e lembra a quem governa que existe limite. Ulysses Guimarães conhecia o peso da participação popular. Democracia não termina no voto. Também exige disposição para acompanhar, questionar e reagir.
O poder é realmente tão forte ou cresceu porque encontrou gente disposta a baixar a cabeça?
* Sérgio Lopes é jornalista.
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